Viajo
amanhã e não poderia deixar de te escrever esta missiva consignando
minhas escusas. Que a tepidez do meu arbítrio lexical não impinja
em tua augusta alma perverso influxo: amei-te. Amei-te como as moças
amam, de modo onírico, os rapazes, como as filhas amam, em libidinal
segredo, seus pais, como a cabeça ama, inexoravelmente, os troncos e
os membros. Amei-te a você, assim, coloquialmente, e não na segunda
pessoa do singular, como na forma culta. Amei-te intensamente,
cegamente, impavidamente. Amei-te, e já não te amo. Escrevo-te
sendo certa e errada, certa na gramática e errada no teu orgulho,
errada, porque há imperativos de moral, de consideração, de
amizade, certa, porque no amor não se erra, certa, porque tenho
convicção de meus sentimentos, errada, porque os sentimentos não
são convictos de si mesmos, porque a ternura do sol vernal, será
tortura do sol estival e tornar-se-á novamente delícia do sol
hibernal, certa, errada, certa, errada... Não ignoro que ainda me
amas, ignoro, sim, a regra dos amores, ignoro porque se ama quem não ama em
retorno. Muita vez me assombro conjeturando ser o amor, por ligar
duas almas, linha, e, sendo linha, apenas ficção da geometria.
Ignoro o motivo de me amares e eu não te amar. Ignoro-o. Não por
indiferença, gostaria de amar-te também, gostaria de poder tornar
nosso relacionamento, nossos sentimentos justos, simétricos,
equânimes. Mas não te amo. Em vão procurei, nesses dias que
sucederam nossa separação, e até antes, a razão de eu não te
amar. Ela não existia. Dessarte, inverti a interrogativa: Por que
razão tu me amas? Porque eu sou bonita?! Então queres pra ti o
belo, julgas-te digno do belo, tens vaidade de possuir o belo!?
Porque sou inteligente, culta, porque tenho qualidades, porque me
admiras?! Nesse caso, queres para ti minhas qualidades!? Queres
sentir-te inteligente por ter curvada a ti uma mulher inteligente!?
Queres sentir-te culto por não enfadar uma mulher culta!? Queres
sentir ser um homem de qualidades e virtudes por ser amado por uma
mulher de qualidades e virtudes!? Me amas, de certo, porque eu faria
tudo por ti, cuidaria de ti?! Então pensas, novamente, no teu
próprio bem, na tua própria comodidade!? Por que me amas?! Porque
eu não te amo?! Queres então ser capaz de conquistar o impossível!?
De reverter meus sentimentos!? De dominar, desbravar, conquistar,
tomar meu amor, como Alexandre e Gengis Khan tomaram o mundo!?
Queres, pois, adentrar, dominar e proclamar-te imperador do reino de
mim!? Ora, se esse é o caso (e tenho para mim que sim, pensa bem),
todos os reinos são reinos igualmente dignos de serem conquistados,
tu não haverás de discordar que, se tivesse nascido inca, Alexandre
teria dominado as Américas com o mesmo prazer, orgulho e vivacidade
que experimentou dominando a Eurásia. Escrevo-te essa missiva
suplicando teu perdão, suplicando que me esqueças, que sigas em
frente, que não chores, meu colega, que não me odeies, pois
amas-me a ti mesmo.
sexta-feira, 10 de agosto de 2012
quinta-feira, 2 de agosto de 2012
Minha mãe não me deixa sair
Mendigos da praça da
igreja,
garis, presidiários,
turistas, guardas,
garotas do colégio
Mace (eu vejo vocês,
ao meio-dia, na Rui
Barbosa, na Quinze de Novembro, namorando e esperando, nos mesmos
lugares que as prostitutas e os travestis, à meia-noite),
prostitutas, travestis,
crentes malucos que
anunciam o fim dos tempos aos berros no centro,
mulheres, homens
de toda sorte:
minha mãe não me
deixa sair!
Espíritos da Avenida
Afonso Pena,
a avenida da minha
vida,
a avenida de carros e
construções...
Batuque de máquinas!
Cafofo do universo!
Cafofo de fraqueza,
hipocrisia, fantasia e grandeza!
Imenso lugar minúsculo!
Minha casa é menor
ainda;
meu corpo...
Casas, lojas,
repartições públicas,
shoppings, bares,
lanchonetes,
negro asfalto
sarapintado em sangue,
postes, cabos
condutores de eletricidade,
prédios gigantes,
ásperos, escarpas de concreto...
(Tudo isso é morto.
Tudo isso é morto e
ainda assim o amor está ali,
tão forte, tão óbvio,
tão nítido,
que causa vertigem,
que resiste ao Sol
escaldante da tarde,
que nunca evapora.)
Pombas, pardais:
minha mãe não me
deixa sair!!
Motoqueiros
acidentados,
no chão de quarenta
graus,
sangrando, mutilados,
bandidos, ladrões,
noiados, estupradores,
deficientes físicos,
cadeirantes,
cegos, deficientes
mentais,
deficientes de caráter,
de personalidade,
atletas, madames,
fazendeiros merecidamente podres de ricos,
filhos de fazendeiros,
playboys musculosos, agressivos,
homossexuais
enrustidos, padres, eu pequei,
anões do residencial
Flamboyant:
minha mãe não me
deixa sair!!!
Oh, desespero da
humanidade,
do humano, demasiado
humano,
de páginas e páginas,
de livros e livros que
eu não li, + q quero ler pq o título eh massa.
Hey, John Lennon, Cartola,
Beethoven:
minha mãe não me
deixa sair!!
Que vento é esse,
que arrouba, arranca,
arrebata,
arrasa, arromba,
arralenta,
arranha, arreganha,
arrepia, desarranja,
que mata e não se
arrepende,
que arrama, que arrasta
as sementes e arremessa a vida,
arretado, que arria o
rapaz e arriba a saia da moça,
que abre e fecha portas
e janelas, abrupto,
que tudo leva, que tudo
traz,
que assovia chamando:
Pedro,
que acaricia,
que, vazio, é cheio de
significado?
Volúpia dos violões...
Versos vibram,
vociferam vadios.
Vermes!!!
Se alimentam do meu
sofrimento
- me alimento do meu
sofrimento -
se aproveitam de minha
nobreza,
minha preguiça, minha
vaidade. Minha mãe
não me deixa sair.
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