sexta-feira, 10 de agosto de 2012

missiva


Viajo amanhã e não poderia deixar de te escrever esta missiva consignando minhas escusas. Que a tepidez do meu arbítrio lexical não impinja em tua augusta alma perverso influxo: amei-te. Amei-te como as moças amam, de modo onírico, os rapazes, como as filhas amam, em libidinal segredo, seus pais, como a cabeça ama, inexoravelmente, os troncos e os membros. Amei-te a você, assim, coloquialmente, e não na segunda pessoa do singular, como na forma culta. Amei-te intensamente, cegamente, impavidamente. Amei-te, e já não te amo. Escrevo-te sendo certa e errada, certa na gramática e errada no teu orgulho, errada, porque há imperativos de moral, de consideração, de amizade, certa, porque no amor não se erra, certa, porque tenho convicção de meus sentimentos, errada, porque os sentimentos não são convictos de si mesmos, porque a ternura do sol vernal, será tortura do sol estival e tornar-se-á novamente delícia do sol hibernal, certa, errada, certa, errada... Não ignoro que ainda me amas, ignoro, sim, a regra dos amores, ignoro porque se ama quem não ama em retorno. Muita vez me assombro conjeturando ser o amor, por ligar duas almas, linha, e, sendo linha, apenas ficção da geometria. Ignoro o motivo de me amares e eu não te amar. Ignoro-o. Não por indiferença, gostaria de amar-te também, gostaria de poder tornar nosso relacionamento, nossos sentimentos justos, simétricos, equânimes. Mas não te amo. Em vão procurei, nesses dias que sucederam nossa separação, e até antes, a razão de eu não te amar. Ela não existia. Dessarte, inverti a interrogativa: Por que razão tu me amas? Porque eu sou bonita?! Então queres pra ti o belo, julgas-te digno do belo, tens vaidade de possuir o belo!? Porque sou inteligente, culta, porque tenho qualidades, porque me admiras?! Nesse caso, queres para ti minhas qualidades!? Queres sentir-te inteligente por ter curvada a ti uma mulher inteligente!? Queres sentir-te culto por não enfadar uma mulher culta!? Queres sentir ser um homem de qualidades e virtudes por ser amado por uma mulher de qualidades e virtudes!? Me amas, de certo, porque eu faria tudo por ti, cuidaria de ti?! Então pensas, novamente, no teu próprio bem, na tua própria comodidade!? Por que me amas?! Porque eu não te amo?! Queres então ser capaz de conquistar o impossível!? De reverter meus sentimentos!? De dominar, desbravar, conquistar, tomar meu amor, como Alexandre e Gengis Khan tomaram o mundo!? Queres, pois, adentrar, dominar e proclamar-te imperador do reino de mim!? Ora, se esse é o caso (e tenho para mim que sim, pensa bem), todos os reinos são reinos igualmente dignos de serem conquistados, tu não haverás de discordar que, se tivesse nascido inca, Alexandre teria dominado as Américas com o mesmo prazer, orgulho e vivacidade que experimentou dominando a Eurásia. Escrevo-te essa missiva suplicando teu perdão, suplicando que me esqueças, que sigas em frente, que não chores, meu colega, que não me odeies, pois amas-me a ti mesmo.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Minha mãe não me deixa sair


Mendigos da praça da igreja,
garis, presidiários,
turistas, guardas,
garotas do colégio Mace (eu vejo vocês,
ao meio-dia, na Rui Barbosa, na Quinze de Novembro, namorando e esperando, nos mesmos lugares que as prostitutas e os travestis, à meia-noite),
prostitutas, travestis,
crentes malucos que anunciam o fim dos tempos aos berros no centro,
mulheres, homens
de toda sorte:
minha mãe não me deixa sair!

Espíritos da Avenida Afonso Pena,
a avenida da minha vida,
a avenida de carros e construções...
Batuque de máquinas!
Cafofo do universo!
Cafofo de fraqueza, hipocrisia, fantasia e grandeza!
Imenso lugar minúsculo!

Minha casa é menor ainda;
meu corpo...

Casas, lojas, repartições públicas,
shoppings, bares, lanchonetes,
negro asfalto sarapintado em sangue,
postes, cabos condutores de eletricidade,
prédios gigantes, ásperos, escarpas de concreto...

(Tudo isso é morto.

Tudo isso é morto e ainda assim o amor está ali,
tão forte, tão óbvio, tão nítido,
que causa vertigem,
que resiste ao Sol escaldante da tarde,
que nunca evapora.)

Pombas, pardais:
minha mãe não me deixa sair!!

Motoqueiros acidentados,
no chão de quarenta graus,
sangrando, mutilados,
bandidos, ladrões,
noiados, estupradores,
deficientes físicos, cadeirantes,
cegos, deficientes mentais,
deficientes de caráter, de personalidade,
atletas, madames, fazendeiros merecidamente podres de ricos,
filhos de fazendeiros, playboys musculosos, agressivos,
homossexuais enrustidos, padres, eu pequei,
anões do residencial Flamboyant:
minha mãe não me deixa sair!!!

Oh, desespero da humanidade,
do humano, demasiado humano,
de páginas e páginas,
de livros e livros que eu não li, + q quero ler pq o título eh massa.
Hey, John Lennon, Cartola, Beethoven:
minha mãe não me deixa sair!!

Que vento é esse,
que arrouba, arranca, arrebata,
arrasa, arromba, arralenta,
arranha, arreganha, arrepia, desarranja,
que mata e não se arrepende,
que arrama, que arrasta as sementes e arremessa a vida,
arretado, que arria o rapaz e arriba a saia da moça,
que abre e fecha portas e janelas, abrupto,
que tudo leva, que tudo traz,
que assovia chamando: Pedro,
que acaricia,
que, vazio, é cheio de significado?

Volúpia dos violões...

Versos vibram,
vociferam vadios.
Vermes!!!
Se alimentam do meu sofrimento
- me alimento do meu sofrimento -
se aproveitam de minha nobreza,
minha preguiça, minha vaidade. Minha mãe
não me deixa sair.