quinta-feira, 26 de julho de 2012

A arte pela arte ou a arte para um fim? that's the question...em aberto.

Eis que Pedrocemvezes faz uma pergunta: as musas de hoje não são mais perfeitas como antigamente eram? Eis que seu interlocutor lhe pergunta: O que é perfeição pra você? Eis que Pedro responde: o Belo. Eis que o outro rebate: Mas o belo não é igual pra todos e, além disso, o Belo nada mais é do que algo criado, racionalmente, para ser belo para determinado público, com o intuito de atingir certo objetivo - causar uma emoção ou um comportamento - pretendido pelo artista. Eis que Pedro não se conforma e insiste que o Belo é o belo e nada mais, e a arte não pode ser somente pragmática, feita com um fim determinado de causar um impacto ou uma emoção controlada pelo artista nas pessoas atingidas por sua obra. Eis que surge, na minha cabeça, o seguinte questionamento: "A arte pela arte ou a arte para um fim?"
Para responder essa pergunta, com certeza, seria necessário um estudo aprofundado sobre a história da arte, desde os tempos remotos dos nossos descendentes primatas das cavernas até os dias de hoje, mas como este é apenas um blog, e não uma revista científica, e os autores são apenas diletantes, e não estudiosos da cepa de um Umberto Eco (felizmente!), então vamos ao improviso...
Mas, antes, transcrevo o trecho de um texto do Paulo Francis que, por coincidência, li ontem e ajudará nesta reflexão improvisada - proponho que este post fique em aberto para intervenções minhas (fonte na cor de sempre) e de Pedrocemvezes (fonte em outra cor de sua preferência ou com aquele grifado branco que você tá usando). Por enquanto, delicie-se com o texto do Paulo Francis:

Os artistas são, entre outras coisas, os historiadores supremos do indivíduo. O desenvolvimento acelerado das ciências sociais no século XIX, a partir de Marx (e contra ele, na maioria dos casos), nos permite, hoje, ver qualquer era da humanidade em termos de forças econômicas, políticas e culturais, mas se queremos enxergar a pessoa humana, fora do quadro de estatísticas e dos movimentos decisivos da História, Sófocles nos diz mais que qualquer outro tratado sobre helenismo em moda. E ficando em Sófocles, basta olhar o manjadérrimo Édipo. Sabemos, como espectadores, que o destino do protagonista foi predeterminado, mas Édipo pensa e age na "ilusão" de que é capaz de fazer o que quiser, ou que for capaz. Em última análise, é uma ilusão mesmo. Nos tempos de Sófocles, os deuses determinavam nosso destino. Hoje, foram substituídos pela Bolsa de Nova York. Há quem chame isso de progresso.
Mas é uma ilusão poderosa. Acredito que até o Jaguar se julgue senhor de si próprio. Mais não preciso dizer. E o artista é a expressão máxima dessa consciência que temos de nós mesmos. Há 700  milhões de teorias estéticas negando o que acabei de dizer. E os últimos pensadores importantes a concordarem comigo, Nietzsche e Freud, são considerados, hoje, pouco "científicos". (...)
Ezra Pound (1885-1972) é o Artista por excelência do século XX. No E.P. Ode por L'Eléction de son Sepulchre, o poeta escreveu a linha autobiográfica citadíssima: His true Penélope was Flaubert. Não dá pra traduzir, porque, em inglês, "true" quer dizer, ao mesmo tempo, "fiel" e "verdadeira", em relação à fiel e verdadeira (única) mulher de Ulisses, Penélope, que, no caso de Pound, ele dizia ser Flaubert, o mestre consumado do estilo, do valor intrínseco da palavra, da literatura pela literatura, da arte pela arte, em suma. O esquerdista ingênuo estremece. Aí está um cavalheiro propondo uma torre de marfim, uma citadela do individualismo, alienado, etc. em face das injustiças e crueldades do nosso tempo. Logo, Pound é "objetivamente" um apologista do status quo, do imobilismo social. Mas se você lê os poemas mais famosos de Pound, Homage to Sextus Propertius e (...) encontrará ataques devastadores à burguesia dominante. O mesmo pode ser dito de outros gigantes da literatura anglo-americana-irlandesa do século XX, Joyce, Eliot, Yeats e D.H Lawrence, todos politicamente (em graus variáveis) reacionários, pelos critérios convencionais.
O desprezo e o ódio que esses artistas têm pela sociedade burguesa é idêntico ao do mais virulento bolchevique de 1917. A diferença, claro, é que eles não aceitam a solução marxista.
(...)
E não só em literatura. Se você ouve Strauss (Richard) e Stravinsky pré-1914, nota que a "selvageria" dos dois contrastava "inexplicavelmente" com o otimismo do liberalismo capitalista na Europa, que não enfrentava uma guerra séria desde 1871 (ou na versão Metternich-Reader's Digest do Dr. Kissinger, desde 1815). Idem, em outro exemplo, o cubismo do "comunista" Pablo Picasso. Haverá coisa mais anti-humanista do que o cubismo, pergunto? É que esses artistas, por sua posição política pública, assumiam inconscientemente a insatisfação do indivíduo com a sociedade de massas. (...)
[Pasquim, n° 177, novembro de 1972, Paulo Francis]

Retomemos o debate. Pra responder a tão esperada questão: "A ARTE PELA ARTE OU A ARTE PARA UM FIM?", vamos ao conceito chave, o principal, porque sem ele não sabemos nem do que estamos falando (como se soubéssemos mesmo), do quê seria arte? Afinal, o que é ARTE? 
Você poderia responder, de forma apressada e desinteressada, que é qualquer coisa feita por um artista, mas aí você estaria jogando toda a responsabilidade sobre o artista (como se não fosse mesmo). E, então, perguntaríamos, de pronto e mais porcamente, quem é esse tal de artista, no que responderíamos, mais rápido e cinicamente que antes, que é o cara, à toa, que se mete a fazer arte, ué! Pois, como se nota, não sairemos desse circo nunca, uma vez que sempre haverão pessoas que fazem algo que dizem ser arte e, por isso, são considerados artistas; e, por outro lado, sempre haverão coisas inexplicáveis que serão chamadas de arte e, por isso, seus autores também serão considerados artistas.
Dito tudo isso, somente pra saber o que é arte e então iniciarmos o debate reflexivo que levaria fatalmente a tão almejada resposta à pergunta inicial, entro em estado profundo de consternação por não ver um fim nisso tudo,  apenas arte, e durmo.


Ciente de que tudo o que eu disser pode e será utilizado contra mim, inclusive o que eu não disser, contribuo com essa discussão que não existe (já que nenhuma tese foi colocada).
Permiti-me não ler o texto do rapazinho aí, já que somos diletantes (preferiria boêmio) cujas reflexões sobre a arte são necessariamente improvisadas. É que, nessa condição, não precisaríamos de ler porra nenhuma pra falar sobre o que for (a transcrição do texto do erudito é incoerente com a introito do tópico). Nada obstante, confesso que tentei lê-lo, o erudito falou em marx, bolsa de ny, sófocles, fiquei curiosíssimo pra saber da feijoada quando pronta, mas tive que parar no parágrafo em que o erudito afirmou que o Nietzsche e o Freud concordavam com ele. Pô, se até os gênios defuntos concordam com ele, quem sou eu pra...
Eu sou só esse cara que tá aí, todo dia, que vocês conhecem, nada demais, daqui nada de incrível ou genial vai sair.
Sobre a arte pela arte ou para um fim, penso que é necessário esclarecer se estamos falando sobre o que a arte é, ou sobre o que ela deve ser.
No primeiro sentido, acho que a arte é algo para um fim, porque tudo o que o homem faz ele faz para um fim. Apesar de sua existência mesma não ter um fim.
No segundo sentido, acho uma discussão infrutífera, não adiantaria dizer que a arte deve ter um fim, se ela, por sua natureza, não tivesse, e vice versa.
Agora, a discussão sobre o que é arte... essa sim vale a pena pegar na pena para pintar o papiro.
Mas também sinto sono, tanto que tentava fazer uma obra de arte, nada de genial, somente algo decente, algo que alguém olhasse e dissesse, é, ok, tem métrica e faz sentido; mas saiu isso:

Te contarei uma novidade, o mundo é uma bola girando há muito tempo no espaço, você preso no mundo, por uma questão de gravidade, por uma questão de vaidade quer ter tudo quer ser livre no mundo uma bola girando, há muito tempo no espaço você preso no mundo por uma questão de gravidade nunca livre nunca dono de nada e nada que há para ser possuído apenas a bola do mundo há muito tempo girando no espaço, por uma questão de vaidade você querendo tudo e não tendo nada senão sua dor, seu amor, e seu sono, o mundo é uma bola girando e você perdendo e ganhando vai no espaço preso achatado na crosta livre para o voo impossível da sua vaidade liberdade e vai idade se alargando no tempo é tudo querer tudo por ter nada a não ser o mundo uma bola gigante girando há muito tempo no espaço você preso no mundo por uma questão de vaidade acumulando e acumulando muita dor, muito amor, e muito sono, o mundo é uma bola girando há muito tempo no espaço seu dia vai acabando seu filho seu neto seu sono uma questão de continuidade oh sua vaidade... você preso ao norte por uma questão de sua vida de sua morte, seu amor, e seu sono, seu mundo é uma bola girando há muito tempo no espaço.

Me arrependi de tudo, sem exceção, não publicarei.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Condomínio.



 Estávamos reunidos os inquilinos para a prestação de contas do condomínio Edifício Jornalista Gustavo Menezes. Eu, estreante, não sabia que um par de colegas era ainda ausente, entre eles, a inquilina do 14. Mas fiquei sabendo, quando ela chegou ao estacionamento onde, de modo improvisado, sentados em cadeiras de plástico, nos reuníamos para a palestra de inutilidades que viria a seguir. A inquilina do 14, então, juntou-se a nós, displicentemente trajada com sua roupa de ginástica, um traje que levaria à loucura qualquer Kassin, mas que não me transmitiu imediato apelo erótico, porque a jovem mulher trazia, sob guarda maternal, uma cachorrinha da raça Yorkshire Terrier. Nada contra a inocente criaturinha. Pelo contrário, acho é grandioso que esse animal, o cachorro, seja tão ligado ao homem, que suas diferentes raças, em realidade, não existam por outro motivo que não o de se adequarem a esse ou aquele tipo humano: o Pit Bull para os bombadinhos e briguentos, o Labrador para as crianças e famílias felizes, o Rottweiler para os mansos psicopatas, o Vira-latas para os pobres ou alternativos, o Yorkshire Terrier (poderia citar mais um milhão de pelúcias animadas, ou assassinas, e a finalidade de sua existência, mas não sou catalogador de matilhas, fui, isso sim, até muito longe nessa enumeração, cuja exclusiva finalidade era comprovar um argumento besta) para as patricinhas.
Mas dizia que, apesar da calça de ginástica, a fotografia não me agradara. Meu descontentamento entendia com a reminiscencia que a figura da graciosa besta me despertou:
- Estou errado, ou quando entrei aqui tive de assinar um documento me comprometendo, entre outras coisas, a não criar animais de estimação? Invento, misturo sonho e realidade, criando lembranças, tal meu vizinho que, após sonhar ter pego a mulher na cama com o irmão, matou-a, na vida real? Se não. Se meu substrato mnemônico não é um mero retalho de tecidos oníricos e fáticos cegamente enleados, suponho que a colega do 14 também, ao debutar em sua condição de inquilina deste prestigiado Edifício Jornalista Gustavo Menezes, tenha deixado sua firma em idêntico documento.
O fato é que, tendo a respeitável inquilina do 14 se encostado comodamente em uma das cadeiras de plástico dispostas de forma rotunda, o ex-síndico que, até então, taciturno, não tinha agraciado nenhum dos presentes com sequer um sorriso daquela face cansada, de bochechas molengas, cabelos grisalhos e aleatoriamente dispostos, e sobrancelhas cerradas, passou a lançar incontidos sorrisos, como se o estacionamento fosse um jardim, os olhos dos presentes capim, e seus dentes um irrigador giratório automático – o leitor perdoará a pobreza poética e o ridículo da metáfora se o autor argumentar que o fez assim não por mediocridade, nem carência de inspiração, isso se evita copiando qualquer coisa de Machado de Assis; mas o fez porque descreve mesmo o ridículo e o poeticamente desnutrido do mundo.
E o ex-síndico brincava com a cachorrinha, e acariciava-lhe o pelo, e coçava-lhe o pescoço e a nuca e as orelhas, e conversava, como se o insignificante ser canino deveras fosse um humano de um ano e oito meses, e demonstrava muito interesse, fazendo toda qualidade de perguntas à gostosa do 14.
Eu sentia raiva dele. O achava, repito, ridículo. Não sou afeto à repetição no texto literário, no científico sim, nele é fundamental a repetição, em nome do rigor científico, coisa que não entendem nossos atuais juristas, principalmente os jurispoetas, tal qual o eminente ministro jurispoeta Carlos Ayres Britto; mas no literário fica chato, pega mal. Deixo-me ser repetitivo, contudo. Que o seja a título de anáfora... Deixo-me ser repetitivo, porque a situação me despertava, mais do que a curiosidade da observação sociológica ou psicanalítica, o asco sentimental, e a amiga leitora bem sabe que são inversamente proporcionais a excitação dos nervos e o domínio vernacular, como se em situações graves, capitais, o leque de palavras à nossa disposição se reduzisse a uma meia dúzia de termos, de maneira que, sendo rendidos por homens armados, ou sendo abandonados pela pessoa amada, nos é impossível tecer um arrazoado convencendo o malfeitor, ou a malfeitora, de que a atitude oposta ou qualquer outra alternativa menos gravosa pudesse satisfazer ambas as partes. Qual o despropósito, dizia eu que o ex-síndico, que estava ali, imagino, antes da gloriosa entrada da dama do 14, apenas para descer glosas ao atual síndico, passou a brincar com a delícia da cachorrinha do 14. Brincava e demonstrava interesse. Para que, arguta leitora? Para que, vivido leitor, homem também, como o ex-síndico? Entendo dispensável redigi-lo, é por demais óbvio, e confesso que, à parte isso, não o faria aqui, no meio do texto, tão longe da foz, ou mesmo de qualquer caidinha d'água, sem nenhum crescente na encenação, no enredo. Quando o fizer, se fizer, será como fazem os palhaços, respeitando a milenar dogmática do tempo cômico, utilizando a regra básica do “um, dois, três: riso”.
Patente, malgrado, que o ridículo ex-síndico nunca conseguiria nada com a musa do 14. Digo logo, já que não sou um escritor romântico, mas um realista-naturalista-modernista-pos-modernista-contemporâneo.
Reconheço que, agora, escrevendo o ocorrido, sinto até um remorso, me indago se não constitui exagero da minha parte me incomodar com a excitação de um pobre velho. Sim, sinto remorso, e quase desisto de chegar ao fim do texto. Mas, quando ia fechando o notebook, um espasmo me impediu, foi um espasmo, mas tinha voz também, e me disse:
Ei, concede a ti mesmo crédito! Porque não terminas a narrativa? Talvez ao cabo convença-te da procedência da tua indignação. E ainda que isso não aconteça, comprovado seres um tolo, estarás na mesma indecorosa condição moral de agora, pior certamente não estarás. Além de tudo, reflete com este espasmo, quem sabe se a desventura de perder mais tempo do que perderias se desistisses agora mesmo não te faça, por consequência, mais desgostoso de ti e, assim, largas de uma vez et ad infinitum a literatura, que não é teu ofício?!
Prossigo. O desconcertante para mim era que a flor do 14 não era grande coisa. Nem tinha o rosto bonito... era gostosa, isso sim, mas não era perfeita, nem perto. Perfeita, detive-me nessa palavra, pensei que já há algum tempo que as musas dos romances não são perfeitas. Elas sempre têm algum defeito, moral, ordinariamente, mas às vezes até físico. A imperfeição das musas entrou tanto no gosto dos autores, que o defeito muita vez é o traço mais cativante, mais apaixonante, mais voluptuoso. Leio Machado de Assis, Marcela é avara, Eugênia coxa, Virgília adúltera, Capitu dissimulada, todas intensamente amadas pelos protagonistas, leio Kafka, e Leni tem uma malha de pele que une os dedos médios da mão direita, encantadora a Leni, leio Graciliano Ramos, e Diadorim tem um problema gravíssimo de gênero, mas, ainda assim, que amor forte, difícil, insistente e doído o de Riobaldo...
Constatei-o, e frente à constatação empírica, até o mais cínico racionalista tem de ceder. No caso, cedi à seguinte conclusão, que se impunha: os modernos não têm interesse em musas perfeitas, como tinham os antigos. Arrisquei uma indução e percebi que, de fato, essa circunstancia se aplicava a toda a arte, não só à literatura, mas à música, à pintura, à escultura, ao teatro, ao cinema etc. Morte à simetria, à consonância, à proporção, a tudo o que era ligado ao perfeito. Ode ao caos.
Saí do sobrepiso sólido do empirismo, mas não desci, me lancei janela a fora, voltando a flutuar no meu bom e velho tapete mágico do racionalismo, e ponderei, tão demoradamente quanto a reunião me permitiu, sobre a razão desse gosto pelo imperfeito, já tão assentado no espírito dos meus contemporâneos, mas que no momento me causava espécie. Súbito esbarrei na conclusão terrível, tão terrível que, por efeito do abalroamento, cheguei a fitar, com olhos esbugalhados, os seios da inquilina do 14. Era a conclusão: o homem moderno não busca mais a perfeição porque a acha, pasmem, não sei se digo, chata.
Mais uma esticada indutiva, e já tinha uma teoria sobre a miséria da humanidade, entendi porque ninguém respeita as leis do condomínio, nem as leis da república, porque não se acaba com a corrupção e a injustiça, porque não se provê saneamento básico, porque não se para e planeja a cidade, a agenda, a vida mesma. Porque isso seria a perfeição, e a perfeição é chata.
Entendi porque era impossível àquele velho nojento resistir aos encantos da moça do 14, e aceitei que a razão de minha raiva em relação a ele era, na verdade, um reflexo – que contraía dolorosamente minhas pupilas até me tornar quase cego –, um eco – que agredia meus ouvidos, me tornando quase surdo.
Eu não tinha raiva do ex-síndico. Tinha raiva da miséria da humanidade (um), tinha raiva da minha própria miséria naquela reunião (dois), tinha raiva da miséria de um rapaz que, tendo abdicado da perfeição, por considerá-la chata, com qualquer poema se contenta, com qualquer escultura se apraz, com qualquer jurisprudência se alinha, com qualquer ideia se distrai (três): comê-la (riso)!

terça-feira, 24 de julho de 2012

Você e eu



Letra

"Volta"

Volta
Agora aqui só mais um pouco
E me beija feito um louco
E não pára, não pára

Volta
E me faz mulher de novo
Eu sei é só você que me conhece
E queima feito fogo

Volta
E me deixa de cara
O seu jeito é uma navalha
Que corta
Que me fere
Que eu gosto
Que tem gosto
De tudo
De nada

Volta
E me olha como a deusa
Impossível
Imperfeita
Que te ama
Que te odeia


Letra e tradução

"Play the part"

Spending time
Convinced that it's mine with her
Just to keep her out of mind


Passando o tempo,
Convencido de que é meu [o tempo] com ela
Só pra mantê-la fora dos meus pensamentos

Still I'll take care to see
Which way the wind blows
Notice how her hair curls


Ainda eu tomarei cuidado pra ver
em que direção o vento sopra
observar como seu cabelo ondula

Pay no mind
To the clown who sits to your side
Content to yield despite pride


Não preste atenção
ao palhaço que senta ao seu lado
satisfeito em ceder/se render/se entregar apesar do orgulho

He is a fool to assume you'd spare a thought
I'm a thieve who's just been caught
And I don't find it funny anymore

Ele é um tolo de acreditar que você se lembraria que
eu sou um ladrão que acabou de ser pego
E eu não acho mais graça nisso

And so I won't play the part
I played before
Oh, no...
Not to you



E então eu não vou fazer o papel
que eu representei antes
Ah, não...
Não pra você

I don't see you laughing anyway
And so I won't play a part
In your mistake
No way

Eu não vejo você sorrindo mais
E então não vou contribuir
nesse seu erro
Sem chance

Not unless you stay
A não ser que você fique
ou
Nem a não ser que você fique*.

*A dúvida: nessa última frase há uma dupla negação, o que não é aceito no inglês, não é? Lembra-se que, quando usa o negativo (don't/didn't), não se usa nobody, nowhere, etc, mas anybody, anywhere?
Pergunto: como fica o final da letra? Será que foi proposital? Vai saber, né?

segunda-feira, 23 de julho de 2012

O homem que trocou a mulher pela cidade.


Carlos é funcionário público há dez anos, nesse meio tempo, não se sabe exatamente onde, mas com certeza não antes de completados cincos anos de serviço público, Carlos passou a sair todas as noites de carro pela cidade. Em suas saídas, Carlos não tinha objetivos, senão olhar. E grafo olhar, em vez de observar, não por acaso, mas porque comunica melhor aquilo que Carlos fazia. Sabe-se que as palavras são meros grunhidos ordenados, cuja única razão de ser é a comunicação entre os homens. É bem verdade que, tendo inventado as palavras para ameaçar, ou para pedir emprestado – sendo a última hipótese mais aceita pelos estudiosos, por provável que as primeiras palavras tenham sido o equivalente, no idioma das cavernas, de “por favor”, no nosso idioma; patente que aquela, a ameaça, não exige complexa sinalização corporal, e não levaria o homem a quebrar sua cabeça organizando esse código tão incrível, quase perfeito, quase divino, místico, sagrado, que é o idioma – , o homem, que, como se sabe, não é nada bobo, passou a usá-las também para organizar seu pensamento. A partir daí – sendo o cérebro um órgão idiota na sua inteligência, explico, cujo brilhantismo, não raro, impede seu dono de viver em paz –, incontáveis palavras foram sendo criadas para definir cada um dos objetos, cada um dos fenômenos, cada um dos sentimentos. Palavras e palavras, um mar delas. Ainda que dois objetos ou sentimentos sejam os mesmos, uma simples peculiaridade justifica, para o homem, um novo nome; por exemplo, uma cadeira e uma poltrona são ambas objetos para se sentar, mas a diferença de forma e material justifica nomes diferentes. Outro exemplo, o amor e o ódio, são ambos sentimentos fortíssimos de uma pessoa em relação a outra, ou a si mesma, fortíssimos no sentido de mais fortes que qualquer outro sentimento que se possa imaginar – entendo necessária a explicitação porque não sinto no superlativo absoluto sintético português a mesma força que no inglês; tivesse o português um “fortest”, usa-lo-ia com mais segurança na robustez do significado –, a única diferença é que um, o amor, é para o bem e o outro, o ódio, para o mal – esqueçamos, por razões cientifico-metodológicas e por zelo à concisão textual, que por vezes fazemos mal, desrespeitamos e esquecemos quem amamos, mas agimos com cortesia, respeito e nunca nos esquecemos daqueles que odiamos. Dizia eu que Carlos olhava a cidade, não observava, porque apesar de serem a mesma coisa, o observar implica em um mínimo de reflexão sobre o que se está olhando, o que Carlos não necessariamente fazia. Carlos não tinham comprometimento com a reflexão sobre a cidade. Não fitava as pessoas, os muros, as ruas, ou até mesmo os meio-fios achando-os belos ou inbelos – não suportei, e usei o neologismo, tão proibidos pelas gramáticas normativas... me fossem permitidos, nunca lançaria mão deles – se limitava a olha-los, somente. O senhor poderia pensar, jovem leitor do século XXI, no âmago de sua consciência afeita à profusão de acontecimentos do mundo moderno, essa profusão forjada pelas novelas e telejornais, que esse hábito de Carlos tivesse algo de enfadonho, que, ao cabo de alguns poucos meses, ele já se encontrasse farto das mesmas imagens... Se engana. A obviedade exegética dos fatos o desmentem. Demos o mínimo de crédito ao nosso amigo, quiça herói. Não é possível que ele passasse anos fazendo algo que não tivesse nada de interessante e novo. Não é possível que, sendo enfadonho esse hábito, por ele Carlos acabasse tomando certas decisões de sanidade, no mínimo, duvidosa – têm ideia do que estou falando, não fingo aqui que as senhoras já não leram o título desta rapsódia1.

Continua...
Ou não.


1Procurem essa palavra no dicionário, na internet, pesquisem, verão como é interessante sua história, acharão profusão de significados, mas nenhum que corresponda ao em que eu a utilizo aqui neste texto: história de raposa para raposas. Mais um neologismo e a comunicação se tornará impossível, imagino.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

M(ó)oral


Estamos anunciando, a quem interessar possa, que o último preceito moral caiu.
Não há mais nada que seja errado.
Não há mais nada que seja errado, porque não haverá punição divina.
Divina é a vida, deus não existe.
Nada é errado, porque a vida continua.
A humanidade não acabará porque alguém traiu sua mulher, seu marido.
Alguns morrerão.
Haverá roubos e assassínios e injustiças.
Mas a vida continuará, e nada fará diferença.
Caiu o último preceito moral, rapaziada, mulherada, meninada, senhoras e senhores:
Vamos às orgias!
O mundo não será melhor ou pior porque transamos ou deixamos de transar.
O mundo não será melhor, porque sempre vivemos, e sempre hemos de viver, à força, subjugados, maltratados, torturados.
O mundo continuará o mesmo,
Porque já estamos fodidos.
Caiu o último preceito moral:
Vamos à caça!
Vamos ao horror!
Talvez lá encontremos beleza,
talvez lá encontremos a verdade.
Caiu o último preceito moral:
agora só valem o desejo e o medo (não foi sempre assim?),
agora só importa dominar ou ser dominado (não foi sempre assim?),
agora só se respeitará o mais forte (não foi sempre assim?).
Fazer o bem só a nós mesmos,
ao outro, apenas no interesse próprio:
visando obter algo em troca ou sentir-se imponente (não foi sempre assim?).
Caiu o último preceito moral:
Vamos às orgias!
Vamos ao horror!
Vamos aos abismos!
Talvez lá encontremos a razão,
talvez lá não encontremos a razão,
talvez lá abdiquemos da necessidade de uma razão,
e, com sorte, encontremos aquilo que sempre buscamos:
um fim.

sábado, 14 de julho de 2012

Livros e leituras

Hoje, depois do almoço, eu participei de um programa de rádio, sobre livros, lá para uma estação de São Paulo. Programa, aliás, com nome de samba-canção na voz, de preferência, do Lúcio Alves: "Certas Palavras".
Eles queriam saber de mim o seguinte: o que é que eu ando lendo aqui em Londres, quais são as novidades nas livrarias, o que é que eu recomendo.
Como de hábito, entrei em solilóquio incontível, como sói acontecer com os melancólicos príncipes dinamarqueses. Acho que essa é a única maneira que eu tenho de pensar: falando em voz alta. Certas pessoas escrevem para saber o que acham. Eu falo. E é uma parada para me conter. Consequentemente, sou aquilo que o vulgo chama de falastrão palpiteiro. Não discordo.Não sou ordeiro, não acredito na ordem, desconfio de tudo que cheire a progresso, essas bandeiras todas.
Que eu me lembre - e todo cara que fala pelos cotovelos se esquece do que andou dizendo -, que eu eu me lembre, de repente me vi envolvido numa verdade da qual só me dei conta ao articulá-la: eu não tenho a menor confiança em livro. Livro não me inspira o menor respeito.
É que livro nós, os brasileiros, levamos muito a sério, talvez por existirem com tanta escassez de qualidade. Principalmente em se tratando de ficção nativa. O resto? O resto a gente vai e traduz, ora.
Eu leio simultaneamente uns três livros. Quase sempre ficção americana, algo em português, quase sempre Machado (não temos muito mais que o Bruxo do Cosme Velho), e uma enxurrada de publicação especializada sobre livro, sobre autores. Quer dizer: eu leio muito mais sobre livro do que livro em si. E o livro passa então a funcionar como objeto perfeito, encerrado em mistério, decifrado, analisado e esmiuçado por especialista regiamente pago para a resenha, a crítica e o ensaio.
Depois sou o protótipo do rato de livraria. Sou capaz de ficar meia hora folheando as novidades da semana. Leio o parágrafo inicial, dou uma folheada, cato uma frase aqui e outra ali, pego o jeitão do bruto, confiro orelha e contracapa. E eis o livro fechado e encerrado e agora é esperar a resenha para ver se o perito concorda comigo que o romance está morto e nada mais tem a dizer.
No que se passa automaticamente à não-ficção. Às biografias, autobiografias, análises literárias, memórias, volumes de cartas. Debaixo disso tudo, cada vez mais enterrado, o livro, o romance, seja Proust, Joyce ou Umberto Eco.
Além do mais, o clima na Inglaterra não conduz à ficção experimental ou de vanguarda, que, num mundo ideal, seria a que mais me interessaria. Mais me interessaria porque nunca descobri nada de muito importante num livro. Descobri muito mais sentado no banco da praça discutindo com a namorada do que em A montanha mágica do Thomas Mann. Senti muito mais aquela manhã de sol em Copacabana do que o suicídio de Ana Karenina de Tolstoi. Um amigo me deixou muito mais perplexo no bar do que o Leopold Bloom tomando um porre com o Stephen Dedalus do James Joyce. O que todos os romances me deram foi, muito raramente, uma vaga lembrança do que foi o banco da praça, a cara da namorada, o jeitão do amigo, aquela manhã de sol. Mas o que eu senti, ah, isso ninguém nem nada chegou perto. Eu, como você e você e você, estava, estou, estamos vivos. Um romance é a coisa mais morta do mundo. E não adianta dar o golpe da releitura. Ele continua lá, paradão. Cada vez dando menos. Então vai e se aplica o golpe do bisturi: dissecá-lo para entender. E aí se perde o banco da praça, a manhã de sol etc. etc. etc.
Estou sendo claro? Claro que não. Fui falar de livro. Livro nunca é claro. Faz um escuro danado, o tal do livro.
(Ivan Lessa, Londres, 30/11/1991)