Estávamos reunidos os inquilinos para a prestação de contas do
condomínio Edifício Jornalista Gustavo Menezes. Eu, estreante, não
sabia que um par de colegas era ainda ausente, entre eles, a
inquilina do 14. Mas fiquei sabendo, quando ela chegou ao
estacionamento onde, de modo improvisado, sentados em cadeiras de
plástico, nos reuníamos para a palestra de inutilidades que viria a
seguir. A inquilina do 14, então, juntou-se a nós, displicentemente
trajada com sua roupa de ginástica, um traje que levaria à loucura
qualquer Kassin, mas que não me transmitiu imediato apelo erótico,
porque a jovem mulher trazia, sob guarda maternal, uma cachorrinha da
raça Yorkshire Terrier. Nada contra a inocente criaturinha. Pelo
contrário, acho é grandioso que esse animal, o cachorro, seja tão
ligado ao homem, que suas diferentes raças, em realidade, não
existam por outro motivo que não o de se adequarem a esse ou aquele
tipo humano: o Pit Bull para os bombadinhos e briguentos, o Labrador
para as crianças e famílias felizes, o Rottweiler para os mansos
psicopatas, o Vira-latas para os pobres ou alternativos, o Yorkshire
Terrier (poderia citar mais um milhão de pelúcias animadas, ou
assassinas, e a finalidade de sua existência, mas não sou
catalogador de matilhas, fui, isso sim, até muito longe nessa
enumeração, cuja exclusiva finalidade era comprovar um argumento
besta) para as patricinhas.
Mas dizia que, apesar da calça de ginástica, a fotografia não me
agradara. Meu descontentamento entendia com a reminiscencia que a
figura da graciosa besta me despertou:
- Estou errado, ou quando entrei aqui tive de assinar um documento me
comprometendo, entre outras coisas, a não criar animais de
estimação? Invento, misturo sonho e realidade, criando lembranças,
tal meu vizinho que, após sonhar ter pego a mulher na cama com o
irmão, matou-a, na vida real? Se não. Se meu substrato mnemônico
não é um mero retalho de tecidos oníricos e fáticos cegamente
enleados, suponho que a colega do 14 também, ao debutar em sua
condição de inquilina deste prestigiado Edifício Jornalista
Gustavo Menezes, tenha deixado sua firma em idêntico documento.
O fato é que, tendo a respeitável inquilina do 14 se encostado
comodamente em uma das cadeiras de plástico dispostas de forma
rotunda, o ex-síndico que, até então, taciturno, não tinha
agraciado nenhum dos presentes com sequer um sorriso daquela face
cansada, de bochechas molengas, cabelos grisalhos e aleatoriamente
dispostos, e sobrancelhas cerradas, passou a lançar incontidos
sorrisos, como se o estacionamento fosse um jardim, os olhos dos
presentes capim, e seus dentes um irrigador giratório automático –
o leitor perdoará a pobreza poética e o ridículo da metáfora se o
autor argumentar que o fez assim não por mediocridade, nem carência
de inspiração, isso se evita copiando qualquer coisa de Machado de
Assis; mas o fez porque descreve mesmo o ridículo e o poeticamente
desnutrido do mundo.
E o ex-síndico brincava com a cachorrinha, e acariciava-lhe o pelo,
e coçava-lhe o pescoço e a nuca e as orelhas, e conversava, como se
o insignificante ser canino deveras fosse um humano de um ano e oito
meses, e demonstrava muito interesse, fazendo toda qualidade de
perguntas à gostosa do 14.
Eu sentia raiva dele. O achava, repito, ridículo. Não sou afeto à
repetição no texto literário, no científico sim, nele é
fundamental a repetição, em nome do rigor científico, coisa que
não entendem nossos atuais juristas, principalmente os jurispoetas,
tal qual o eminente ministro jurispoeta Carlos Ayres Britto; mas no
literário fica chato, pega mal. Deixo-me ser repetitivo, contudo.
Que o seja a título de anáfora... Deixo-me ser repetitivo, porque a
situação me despertava, mais do que a curiosidade da observação
sociológica ou psicanalítica, o asco sentimental, e a amiga leitora
bem sabe que são inversamente proporcionais a excitação dos nervos
e o domínio vernacular, como se em situações graves, capitais, o
leque de palavras à nossa disposição se reduzisse a uma meia dúzia
de termos, de maneira que, sendo rendidos por homens armados, ou
sendo abandonados pela pessoa amada, nos é impossível tecer um
arrazoado convencendo o malfeitor, ou a malfeitora, de que a atitude
oposta ou qualquer outra alternativa menos gravosa pudesse satisfazer
ambas as partes. Qual o despropósito, dizia eu que o ex-síndico,
que estava ali, imagino, antes da gloriosa entrada da dama do 14,
apenas para descer glosas ao atual síndico, passou a brincar com a
delícia da cachorrinha do 14. Brincava e demonstrava interesse. Para
que, arguta leitora? Para que, vivido leitor, homem também, como o
ex-síndico? Entendo dispensável redigi-lo, é por demais óbvio, e
confesso que, à parte isso, não o faria aqui, no meio do texto, tão
longe da foz, ou mesmo de qualquer caidinha d'água, sem nenhum
crescente na encenação, no enredo. Quando o fizer, se fizer, será
como fazem os palhaços, respeitando a milenar dogmática do tempo
cômico, utilizando a regra básica do “um, dois, três: riso”.
Patente, malgrado, que o ridículo ex-síndico nunca conseguiria nada
com a musa do 14. Digo logo, já que não sou um escritor romântico,
mas um realista-naturalista-modernista-pos-modernista-contemporâneo.
Reconheço que, agora, escrevendo o ocorrido, sinto até um remorso,
me indago se não constitui exagero da minha parte me incomodar com a
excitação de um pobre velho. Sim, sinto remorso, e quase desisto de
chegar ao fim do texto. Mas, quando ia fechando o notebook, um
espasmo me impediu, foi um espasmo, mas tinha voz também, e me
disse:
Ei, concede a ti mesmo crédito! Porque não terminas a narrativa?
Talvez ao cabo convença-te da procedência da tua indignação. E
ainda que isso não aconteça, comprovado seres um tolo, estarás na
mesma indecorosa condição moral de agora, pior certamente não
estarás. Além de tudo, reflete com este espasmo, quem sabe se a
desventura de perder mais tempo do que perderias se desistisses agora
mesmo não te faça, por consequência, mais desgostoso de ti e,
assim, largas de uma vez et ad infinitum a literatura,
que não é teu ofício?!
Prossigo. O desconcertante para mim era que a flor do 14 não era
grande coisa. Nem tinha o rosto bonito... era gostosa, isso sim, mas
não era perfeita, nem perto. Perfeita, detive-me nessa palavra,
pensei que já há algum tempo que as musas dos romances não são
perfeitas. Elas sempre têm algum defeito, moral, ordinariamente, mas
às vezes até físico. A imperfeição das musas entrou tanto no
gosto dos autores, que o defeito muita vez é o traço mais
cativante, mais apaixonante, mais voluptuoso. Leio Machado de Assis,
Marcela é avara, Eugênia coxa, Virgília adúltera, Capitu
dissimulada, todas intensamente amadas pelos protagonistas, leio
Kafka, e Leni tem uma malha de pele que une os dedos médios da mão
direita, encantadora a Leni, leio Graciliano Ramos, e Diadorim tem um
problema gravíssimo de gênero, mas, ainda assim, que amor forte,
difícil, insistente e doído o de Riobaldo...
Constatei-o, e frente à constatação empírica, até o mais cínico
racionalista tem de ceder. No caso, cedi à seguinte conclusão, que
se impunha: os modernos não têm interesse em musas perfeitas, como
tinham os antigos. Arrisquei uma indução e percebi que, de fato,
essa circunstancia se aplicava a toda a arte, não só à literatura,
mas à música, à pintura, à escultura, ao teatro, ao cinema etc.
Morte à simetria, à consonância, à proporção, a tudo o que era
ligado ao perfeito. Ode ao caos.
Saí do sobrepiso sólido do empirismo, mas não desci, me lancei
janela a fora, voltando a flutuar no meu bom e velho tapete mágico
do racionalismo, e ponderei, tão demoradamente quanto a reunião me
permitiu, sobre a razão desse gosto pelo imperfeito, já tão
assentado no espírito dos meus contemporâneos, mas que no momento
me causava espécie. Súbito esbarrei na conclusão terrível, tão
terrível que, por efeito do abalroamento, cheguei a fitar, com olhos
esbugalhados, os seios da inquilina do 14. Era a conclusão: o homem
moderno não busca mais a perfeição porque a acha, pasmem, não sei
se digo, chata.
Mais uma esticada indutiva, e já tinha uma teoria sobre a miséria
da humanidade, entendi porque ninguém respeita as leis do
condomínio, nem as leis da república, porque não se acaba com a
corrupção e a injustiça, porque não se provê saneamento básico,
porque não se para e planeja a cidade, a agenda, a vida mesma.
Porque isso seria a perfeição, e a perfeição é chata.
Entendi porque era impossível àquele velho nojento resistir aos
encantos da moça do 14, e aceitei que a razão de minha raiva em
relação a ele era, na verdade, um reflexo – que contraía
dolorosamente minhas pupilas até me tornar quase cego –, um eco –
que agredia meus ouvidos, me tornando quase surdo.
Eu não tinha raiva do ex-síndico. Tinha raiva da miséria da
humanidade (um), tinha raiva da minha própria miséria naquela
reunião (dois), tinha raiva da miséria de um rapaz que, tendo
abdicado da perfeição, por considerá-la chata, com
qualquer poema se contenta, com qualquer escultura se apraz, com
qualquer jurisprudência se alinha, com qualquer ideia se distrai (três):
comê-la (riso)!