Mendigos da praça da
igreja,
garis, presidiários,
turistas, guardas,
garotas do colégio
Mace (eu vejo vocês,
ao meio-dia, na Rui
Barbosa, na Quinze de Novembro, namorando e esperando, nos mesmos
lugares que as prostitutas e os travestis, à meia-noite),
prostitutas, travestis,
crentes malucos que
anunciam o fim dos tempos aos berros no centro,
mulheres, homens
de toda sorte:
minha mãe não me
deixa sair!
Espíritos da Avenida
Afonso Pena,
a avenida da minha
vida,
a avenida de carros e
construções...
Batuque de máquinas!
Cafofo do universo!
Cafofo de fraqueza,
hipocrisia, fantasia e grandeza!
Imenso lugar minúsculo!
Minha casa é menor
ainda;
meu corpo...
Casas, lojas,
repartições públicas,
shoppings, bares,
lanchonetes,
negro asfalto
sarapintado em sangue,
postes, cabos
condutores de eletricidade,
prédios gigantes,
ásperos, escarpas de concreto...
(Tudo isso é morto.
Tudo isso é morto e
ainda assim o amor está ali,
tão forte, tão óbvio,
tão nítido,
que causa vertigem,
que resiste ao Sol
escaldante da tarde,
que nunca evapora.)
Pombas, pardais:
minha mãe não me
deixa sair!!
Motoqueiros
acidentados,
no chão de quarenta
graus,
sangrando, mutilados,
bandidos, ladrões,
noiados, estupradores,
deficientes físicos,
cadeirantes,
cegos, deficientes
mentais,
deficientes de caráter,
de personalidade,
atletas, madames,
fazendeiros merecidamente podres de ricos,
filhos de fazendeiros,
playboys musculosos, agressivos,
homossexuais
enrustidos, padres, eu pequei,
anões do residencial
Flamboyant:
minha mãe não me
deixa sair!!!
Oh, desespero da
humanidade,
do humano, demasiado
humano,
de páginas e páginas,
de livros e livros que
eu não li, + q quero ler pq o título eh massa.
Hey, John Lennon, Cartola,
Beethoven:
minha mãe não me
deixa sair!!
Que vento é esse,
que arrouba, arranca,
arrebata,
arrasa, arromba,
arralenta,
arranha, arreganha,
arrepia, desarranja,
que mata e não se
arrepende,
que arrama, que arrasta
as sementes e arremessa a vida,
arretado, que arria o
rapaz e arriba a saia da moça,
que abre e fecha portas
e janelas, abrupto,
que tudo leva, que tudo
traz,
que assovia chamando:
Pedro,
que acaricia,
que, vazio, é cheio de
significado?
Volúpia dos violões...
Versos vibram,
vociferam vadios.
Vermes!!!
Se alimentam do meu
sofrimento
- me alimento do meu
sofrimento -
se aproveitam de minha
nobreza,
minha preguiça, minha
vaidade. Minha mãe
não me deixa sair.
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