quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Minha mãe não me deixa sair


Mendigos da praça da igreja,
garis, presidiários,
turistas, guardas,
garotas do colégio Mace (eu vejo vocês,
ao meio-dia, na Rui Barbosa, na Quinze de Novembro, namorando e esperando, nos mesmos lugares que as prostitutas e os travestis, à meia-noite),
prostitutas, travestis,
crentes malucos que anunciam o fim dos tempos aos berros no centro,
mulheres, homens
de toda sorte:
minha mãe não me deixa sair!

Espíritos da Avenida Afonso Pena,
a avenida da minha vida,
a avenida de carros e construções...
Batuque de máquinas!
Cafofo do universo!
Cafofo de fraqueza, hipocrisia, fantasia e grandeza!
Imenso lugar minúsculo!

Minha casa é menor ainda;
meu corpo...

Casas, lojas, repartições públicas,
shoppings, bares, lanchonetes,
negro asfalto sarapintado em sangue,
postes, cabos condutores de eletricidade,
prédios gigantes, ásperos, escarpas de concreto...

(Tudo isso é morto.

Tudo isso é morto e ainda assim o amor está ali,
tão forte, tão óbvio, tão nítido,
que causa vertigem,
que resiste ao Sol escaldante da tarde,
que nunca evapora.)

Pombas, pardais:
minha mãe não me deixa sair!!

Motoqueiros acidentados,
no chão de quarenta graus,
sangrando, mutilados,
bandidos, ladrões,
noiados, estupradores,
deficientes físicos, cadeirantes,
cegos, deficientes mentais,
deficientes de caráter, de personalidade,
atletas, madames, fazendeiros merecidamente podres de ricos,
filhos de fazendeiros, playboys musculosos, agressivos,
homossexuais enrustidos, padres, eu pequei,
anões do residencial Flamboyant:
minha mãe não me deixa sair!!!

Oh, desespero da humanidade,
do humano, demasiado humano,
de páginas e páginas,
de livros e livros que eu não li, + q quero ler pq o título eh massa.
Hey, John Lennon, Cartola, Beethoven:
minha mãe não me deixa sair!!

Que vento é esse,
que arrouba, arranca, arrebata,
arrasa, arromba, arralenta,
arranha, arreganha, arrepia, desarranja,
que mata e não se arrepende,
que arrama, que arrasta as sementes e arremessa a vida,
arretado, que arria o rapaz e arriba a saia da moça,
que abre e fecha portas e janelas, abrupto,
que tudo leva, que tudo traz,
que assovia chamando: Pedro,
que acaricia,
que, vazio, é cheio de significado?

Volúpia dos violões...

Versos vibram,
vociferam vadios.
Vermes!!!
Se alimentam do meu sofrimento
- me alimento do meu sofrimento -
se aproveitam de minha nobreza,
minha preguiça, minha vaidade. Minha mãe
não me deixa sair.


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