quarta-feira, 30 de maio de 2012

Ontem conheci Rubem Braga

Ontem conheci Rubem Braga, o gênio das poucas palavras. Que grata surpresa encontrar ele, numa sexta-feira à noite, despretensiosamente, sem nenhum compromisso. Abri seu livro de crônicas "Ai de ti Copacabana" e me deparei com a crônica "A presença". Meu Deus! Como o cara consegue, em pouquíssimas palavras, falar de todo um modo de agir e um sentimento tão íntimo e pessoal que sempre me ocorre? De forma tão simples e direta. Não é possível! Me deu vontade de perguntar a ele: Rubem, você também sente isso? Desse jeito que você descreve? Mas, rapaiz, isso acontece igualzinho comigo, meu! Puxa vida! Que bom conhecê-lo e ouvir as suas palavras, tão parecidas com aquilo que sinto também; tão semelhante naquilo que está dentro de mim. Recomendo conhecer esse cara, vale a pena.

A PRESENÇA

Um telefonema apenas cordial, a que atendo com naturalidade - mas por que, depois, esse indefinível tremor íntimo, essa remota noção de que representei uma cena sob o efeito do hipnotismo, esse indizível susto? Sou um homem tranquilo, e minha vida está tranquila; ouço essa voz, esse nome, e pronto! - começo a agir como se trabalhasse em um filme a que eu mesmo estivesse assistindo. Represento meu papel de maneira normal e faço o papel de um homem normal; mas há um outro eu invisível que é aqualouco, patinador sobre arco-íris, menino tonto, Hamlet, palerma, patético. Enquanto eu digo uma coisa sensata esse meu fantasma se entrega a um silencioso desvario, ou recita versos antigos, voa como um anjo, soluça. Posso contemplá-lo com frieza, criticá-lo, ter pena dele; evito que ele influa no mais mínimo em minha conduta real; quando ele tem um impulso de falar ao telefone eu me ponho tranquilamente a descascar uma laranja ou fazer ponta em um lápis; e sem minhas mãos, sem meu corpo, ele não pode fazer nada. Resolvo ignorá-lo e chego a esquecê-lo durante semanas, meses; mas quando surge a Presença ele salta ao meu lado, sob uma luz sobrenatural, absurdo e infantil.
Não estou apaixonado; meu comércio sentimental com as outras criaturas corre normal, com suas alegrias e tristezas. Não estou apaixonado, mas posso ver a face da Paixão. E por um instante fico parado, mudo, como quem ouvisse, no fundo da noite, o sussurro das estrelas, e o reconhecesse.
Rio, Março, 1956.

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