A PRESENÇA
Um telefonema apenas cordial, a que atendo
com naturalidade - mas por que, depois, esse indefinível tremor íntimo, essa
remota noção de que representei uma cena sob o efeito do hipnotismo, esse
indizível susto? Sou um homem tranquilo, e minha vida está tranquila; ouço essa
voz, esse nome, e pronto! - começo a agir como se trabalhasse em um filme a que
eu mesmo estivesse assistindo. Represento meu papel de maneira normal e faço o
papel de um homem normal; mas há um outro eu invisível que é aqualouco,
patinador sobre arco-íris, menino tonto, Hamlet, palerma, patético. Enquanto eu
digo uma coisa sensata esse meu fantasma se entrega a um silencioso desvario,
ou recita versos antigos, voa como um anjo, soluça. Posso contemplá-lo com
frieza, criticá-lo, ter pena dele; evito que ele influa no mais mínimo em minha
conduta real; quando ele tem um impulso de falar ao telefone eu me ponho
tranquilamente a descascar uma laranja ou fazer ponta em um lápis; e sem minhas
mãos, sem meu corpo, ele não pode fazer nada. Resolvo ignorá-lo e chego a
esquecê-lo durante semanas, meses; mas quando surge a Presença ele salta ao meu
lado, sob uma luz sobrenatural, absurdo e infantil.
Não estou apaixonado; meu comércio
sentimental com as outras criaturas corre normal, com suas alegrias e
tristezas. Não estou apaixonado, mas posso ver a face da Paixão. E por um
instante fico parado, mudo, como quem ouvisse, no fundo da noite, o sussurro das
estrelas, e o reconhecesse.
Rio, Março, 1956.
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