Do cronista
Rubem Braga (1913-1990)
Está provado que acordar mais cedo faz o dia maior. Esta frase
nao é minha, e desgraçadamente não consegui saber
o nome de seu autor, pois acordei muito cedo, mas não o bastante
cedo; quando liguei o rádio às 6:10 a aula já tinha
começado; ouvi o programa até o fim, mas não fiquei
sabendo o nome do professor. "La verando estas vera jardeno, plena
de flôroi". Nunca estudei esperanto, mas suponho que a varanda
ou o verão está com muitas flores no jardim; de qualquer
modo é uma boa notícia, algo de construtivo.
Confesso que a certa altura mudei de estação; sou um espírito
inquieto. A estação logo à direita dava telegramas
de Argel, crise na França; fui mais adiante, sintonizei um bolero;
tentei ainda outra, dizia anúncios; voltei para o meu jardim florido
em esperanto.
O professor estava agora respondendo cartas de ouvintes. O Sr. Sizenando
Mendes Ferreira, de Iporá, Goiás, escrevera dizendo que achara
suas aulas muito interessantes e queria se inscrever entre seus alunos.
Sou um homem do interior, tenho uma certa emoção do interior,
às vezes penso que eu merecia ser goiano. A manhã estava
escura e chuvosa em Ipanema; e me comoveu saber que naquele instante mesmo,
a um mundo de remotas léguas, no interior de Goiás, havia
um Sizenando, brasileiro como eu, aprendendo que o "jardeno"
está "plena de flôroi" - e talvez escrevendo isso
em um caderno.
Não importa que neste momento haja milhões de brasileiros
dormindo insensatamente, enquanto outros milhões tomam café
ou banho de chuveiro ou já marchem para o trabalho, ou que minha
amada Joana esteja neste minuto saindo da Sacha's e entrando no
carro daquele "stompananto" de Botafogo. Eu e Sizenando cultivamos
o jardim da cultura, "plena de flôroi"; nós somos,
de certo modo, a elite do Brasil; amanhecemos em flor.
Então o professor, talvez estimulado pela atenção
do ouvinte goiano, fez uma pequena dissertação sobre a utilidade
do esperanto e tambem sobre a vantagem de acordar cedo. Está provado
que acordar mais cedo faz o dia maior. Nao será uma frase muito
sutil, mas é tão pura e bem-intencionada que poderá
figurar no decálogo do escoteiro. No fundo deve haver alguma ligação
entre o escotismo, o esperanto e acordar cedo. Eis uma falha de minha vida;
nunca fui escoteiro; agora é tarde para quebrar coco na ladeira,
mas talvez ainda seja tempo para aprender um pouco de esperanto; eu e Sizenando.
"Tenho um amigo" - dizia o professor - "que me confessou
que nunca ouvira o meu programa, pois dorme até tarde. Pois bem.
Ele ontem acordou cedo e ouviu o meu programa. Disse-me que passou o dia
inteiro com uma excelente disposição, achou o dia maior e
mais útil, ficou realmente satisfeito."
O próprio professor estava satisfeito com a declaração
de seu amigo; sentia-se isso em sua voz. Murmurei para mim mesmo que o
golpe é este: todo dia acordar cedo, ouvir minha aula de esperanto
e depois se houver alguma aula de ginástica pelas imediações
topar também, "mens sana in corpore sano", no fim do mês
os amigos vão ficar espantados, como o Braga está bem! Este
pensamento me reconfortou; estendi a mão para pegar um cigarro na
mesinha-de-cabeceira, mas fumei com um certo remorso. No fundo o esperanto
deve ser contra o tabagismo, assim como é favorável ao escotismo.
"Mi estas bruna". Isto quer dizer: eu sou moreno. "Mi
estas bruna", ó filhas de Jerusalém, dizia a Sulamita.
A esta hora Joana deve estar no carro daquele palhaço, toda aconchegada
a ele, meio tonta de uísque, vai para o apartamento dele - um imbecil
que não sabe uma só palavra de esperanto! A vida é
triste, Sizenando.
Rio, junho, 1958.
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