Carlos é funcionário público há dez anos, nesse meio tempo, não
se sabe exatamente onde, mas com certeza não antes de completados
cincos anos de serviço público, Carlos passou a sair todas as
noites de carro pela cidade. Em suas saídas, Carlos não tinha
objetivos, senão olhar. E grafo olhar, em vez de observar,
não por acaso, mas porque comunica melhor aquilo que Carlos fazia.
Sabe-se que as palavras são meros grunhidos ordenados, cuja única
razão de ser é a comunicação entre os homens. É bem verdade que,
tendo inventado as palavras para ameaçar, ou para pedir emprestado –
sendo a última hipótese mais aceita pelos estudiosos, por provável
que as primeiras palavras tenham sido o equivalente, no idioma das
cavernas, de “por favor”, no nosso idioma; patente que aquela, a
ameaça, não exige complexa sinalização corporal, e não levaria o
homem a quebrar sua cabeça organizando esse código tão incrível,
quase perfeito, quase divino, místico, sagrado, que é o idioma –
, o homem, que, como se sabe, não é nada bobo, passou a usá-las
também para organizar seu pensamento. A partir daí – sendo o
cérebro um órgão idiota na sua inteligência, explico, cujo
brilhantismo, não raro, impede seu dono de viver em paz –,
incontáveis palavras foram sendo criadas para definir cada um dos
objetos, cada um dos fenômenos, cada um dos sentimentos. Palavras e
palavras, um mar delas. Ainda que dois objetos ou sentimentos sejam
os mesmos, uma simples peculiaridade justifica, para o homem, um novo
nome; por exemplo, uma cadeira e uma poltrona são ambas objetos para
se sentar, mas a diferença de forma e material justifica nomes
diferentes. Outro exemplo, o amor e o ódio, são ambos sentimentos
fortíssimos de uma pessoa em relação a outra, ou a si mesma,
fortíssimos no sentido de mais fortes que qualquer outro sentimento
que se possa imaginar – entendo necessária a explicitação porque
não sinto no superlativo absoluto sintético português a mesma
força que no inglês; tivesse o português um “fortest”,
usa-lo-ia com mais segurança na robustez do significado –, a única
diferença é que um, o amor, é para o bem e o outro, o ódio, para
o mal – esqueçamos, por razões cientifico-metodológicas e por
zelo à concisão textual, que por vezes fazemos mal, desrespeitamos
e esquecemos quem amamos, mas agimos com cortesia, respeito e nunca
nos esquecemos daqueles que odiamos. Dizia eu que Carlos olhava a
cidade, não observava, porque apesar de serem a mesma coisa, o
observar implica em um mínimo de reflexão sobre o que se está
olhando, o que Carlos não necessariamente fazia. Carlos não tinham
comprometimento com a reflexão sobre a cidade. Não fitava as
pessoas, os muros, as ruas, ou até mesmo os meio-fios achando-os
belos ou inbelos – não suportei, e usei o neologismo, tão
proibidos pelas gramáticas normativas... me fossem permitidos, nunca
lançaria mão deles – se limitava a olha-los, somente. O senhor
poderia pensar, jovem leitor do século XXI, no âmago de sua
consciência afeita à profusão de acontecimentos do mundo moderno,
essa profusão forjada pelas novelas e telejornais, que esse hábito
de Carlos tivesse algo de enfadonho, que, ao cabo de alguns poucos
meses, ele já se encontrasse farto das mesmas imagens... Se engana.
A obviedade exegética dos fatos o desmentem. Demos o mínimo de
crédito ao nosso amigo, quiça herói. Não é possível que ele
passasse anos fazendo algo que não tivesse nada de interessante e
novo. Não é possível que, sendo enfadonho esse hábito, por ele
Carlos acabasse tomando certas decisões de sanidade, no mínimo,
duvidosa – têm ideia do que estou falando, não fingo aqui que as
senhoras já não leram o título desta rapsódia1.
Continua...
Ou não.
1Procurem
essa palavra no dicionário, na internet, pesquisem, verão como é
interessante sua história, acharão profusão de significados, mas
nenhum que corresponda ao em que eu a utilizo aqui neste texto:
história de raposa para raposas. Mais um neologismo e a comunicação
se tornará impossível, imagino.