segunda-feira, 23 de julho de 2012

O homem que trocou a mulher pela cidade.


Carlos é funcionário público há dez anos, nesse meio tempo, não se sabe exatamente onde, mas com certeza não antes de completados cincos anos de serviço público, Carlos passou a sair todas as noites de carro pela cidade. Em suas saídas, Carlos não tinha objetivos, senão olhar. E grafo olhar, em vez de observar, não por acaso, mas porque comunica melhor aquilo que Carlos fazia. Sabe-se que as palavras são meros grunhidos ordenados, cuja única razão de ser é a comunicação entre os homens. É bem verdade que, tendo inventado as palavras para ameaçar, ou para pedir emprestado – sendo a última hipótese mais aceita pelos estudiosos, por provável que as primeiras palavras tenham sido o equivalente, no idioma das cavernas, de “por favor”, no nosso idioma; patente que aquela, a ameaça, não exige complexa sinalização corporal, e não levaria o homem a quebrar sua cabeça organizando esse código tão incrível, quase perfeito, quase divino, místico, sagrado, que é o idioma – , o homem, que, como se sabe, não é nada bobo, passou a usá-las também para organizar seu pensamento. A partir daí – sendo o cérebro um órgão idiota na sua inteligência, explico, cujo brilhantismo, não raro, impede seu dono de viver em paz –, incontáveis palavras foram sendo criadas para definir cada um dos objetos, cada um dos fenômenos, cada um dos sentimentos. Palavras e palavras, um mar delas. Ainda que dois objetos ou sentimentos sejam os mesmos, uma simples peculiaridade justifica, para o homem, um novo nome; por exemplo, uma cadeira e uma poltrona são ambas objetos para se sentar, mas a diferença de forma e material justifica nomes diferentes. Outro exemplo, o amor e o ódio, são ambos sentimentos fortíssimos de uma pessoa em relação a outra, ou a si mesma, fortíssimos no sentido de mais fortes que qualquer outro sentimento que se possa imaginar – entendo necessária a explicitação porque não sinto no superlativo absoluto sintético português a mesma força que no inglês; tivesse o português um “fortest”, usa-lo-ia com mais segurança na robustez do significado –, a única diferença é que um, o amor, é para o bem e o outro, o ódio, para o mal – esqueçamos, por razões cientifico-metodológicas e por zelo à concisão textual, que por vezes fazemos mal, desrespeitamos e esquecemos quem amamos, mas agimos com cortesia, respeito e nunca nos esquecemos daqueles que odiamos. Dizia eu que Carlos olhava a cidade, não observava, porque apesar de serem a mesma coisa, o observar implica em um mínimo de reflexão sobre o que se está olhando, o que Carlos não necessariamente fazia. Carlos não tinham comprometimento com a reflexão sobre a cidade. Não fitava as pessoas, os muros, as ruas, ou até mesmo os meio-fios achando-os belos ou inbelos – não suportei, e usei o neologismo, tão proibidos pelas gramáticas normativas... me fossem permitidos, nunca lançaria mão deles – se limitava a olha-los, somente. O senhor poderia pensar, jovem leitor do século XXI, no âmago de sua consciência afeita à profusão de acontecimentos do mundo moderno, essa profusão forjada pelas novelas e telejornais, que esse hábito de Carlos tivesse algo de enfadonho, que, ao cabo de alguns poucos meses, ele já se encontrasse farto das mesmas imagens... Se engana. A obviedade exegética dos fatos o desmentem. Demos o mínimo de crédito ao nosso amigo, quiça herói. Não é possível que ele passasse anos fazendo algo que não tivesse nada de interessante e novo. Não é possível que, sendo enfadonho esse hábito, por ele Carlos acabasse tomando certas decisões de sanidade, no mínimo, duvidosa – têm ideia do que estou falando, não fingo aqui que as senhoras já não leram o título desta rapsódia1.

Continua...
Ou não.


1Procurem essa palavra no dicionário, na internet, pesquisem, verão como é interessante sua história, acharão profusão de significados, mas nenhum que corresponda ao em que eu a utilizo aqui neste texto: história de raposa para raposas. Mais um neologismo e a comunicação se tornará impossível, imagino.

Um comentário:

  1. Partindo do seguinte pressuposto: "Comunicação é possível, compreensão já é pedir demais" passo a analisar o texto d'o homem que trocou a mulher pela cidade'.
    Vejo que o senhor, já um adulto do século XXI, iniciou de uma forma singela a narrativa, apenas contando que Carlos, um funcionário público de 10 anos de carreira, passou a sair pela cidade, toda noite, após aproximadamente 5 anos daquela posse no serviço público, para simplesmente "olhar", e não observar - diferença que foi destacada muito bem tão-somente para que fosse possível o corte para as 3 teorias que o senhor expôs no texto. Adianto, de antemão, quais são elas: 1°) a teoria do homem-primata cordial; 2°) a tese do suicídio; e 3°) a tese do amor = ódio, apenas dois nomes diferentes para um mesmo sentimento. Passo a esmiuça-las a seguir:
    Primeiro, o senhor defende a tese de que o idioma (a língua, como preferir) é fruto da gentileza, dos bons modos, do, melhor assim dizer, respeito ao próximo. Isso porque ninguém "quebra a cabeça" pra ameaçar alguém; pelo contrário, apenas sinaliza que vai quebrar com gestos (talvez alguns dedos quebrados) e alguns grunhidos (não por parte do ameaçador), e isso já bastava para o entendimento do receptor da mensagem. Disso decorre que o homem-primata cordial, querendo ser gentil, - e aqui entra o surgimento desse comportamento - para não perder o convívio social com outro primata (o que hoje pode se chamar de amizade), bolou um jeito de "pedir emprestado" um objeto de desejo ao amigo, sem que tivesse que ameaçá-lo, mas sorrateiramente conquistando-o, para que ele próprio se convencesse em ceder o objeto ao outro por, digamos, "vontade própria", o que, de certa forma, também era uma forma de ameaçá-lo. Pois essa teria sido a razão do surgimento da linguagem?
    Segundo, o senhor trouxe a afirmativa de que o cérebro atrapalha o seu dono, pois o impede de viver em paz, do que decorre, logicamente, que uma pessoa anencéfala viveria em paz. Portanto, a tese do suicídio.
    Terceiro, o senhor sustentou que amor e ódio são, em verdade, o mesmo sentimento só que nominado de duas formas diferentes, a depender do ponto de vista, se para o bem ou para o mal, o que também pode ser confundido com facilidade, quando o senhor lembra (e não esqueçamos) que o ódio/amor também pode ser praticado com ternura, cortesia e respeito quando dirigido a uma pessoa amada/odiada.
    Após a exposição das suas 3 teorias, o senhor volta à narrativa de Carlos, dizendo que ele se limitava a olhar as coisas, as pessoas, os fatos sem analisá-los, ou seja, sem o mínimo de reflexão. E depois dá um pito em quem - provavelmente o leitor voraz e ansioso dos dias de hoje - acha que Carlos se encontrava farto das mesmas imagens após alguns meses (não seriam anos?) de olhamento (um neologismo, pois, como o senhor disse, não é observação). Por fim, não se conforma que ele passe tanto tempo fazendo algo tão enfadonho e sem interesse, as vezes até tomando decisões insanas por causa desse hábito compulsivo. Por que será, meu Deus? Aí tem algo.
    Contínuo*...
    ou não.
    *sinônimo de "durativo".

    OBS: uma pergunta que não quer calar e precisa ser esclarecida para o leitor do século XXI: Que porra é essa de "obviedade exegética dos fatos"?

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