quarta-feira, 25 de julho de 2012

Condomínio.



 Estávamos reunidos os inquilinos para a prestação de contas do condomínio Edifício Jornalista Gustavo Menezes. Eu, estreante, não sabia que um par de colegas era ainda ausente, entre eles, a inquilina do 14. Mas fiquei sabendo, quando ela chegou ao estacionamento onde, de modo improvisado, sentados em cadeiras de plástico, nos reuníamos para a palestra de inutilidades que viria a seguir. A inquilina do 14, então, juntou-se a nós, displicentemente trajada com sua roupa de ginástica, um traje que levaria à loucura qualquer Kassin, mas que não me transmitiu imediato apelo erótico, porque a jovem mulher trazia, sob guarda maternal, uma cachorrinha da raça Yorkshire Terrier. Nada contra a inocente criaturinha. Pelo contrário, acho é grandioso que esse animal, o cachorro, seja tão ligado ao homem, que suas diferentes raças, em realidade, não existam por outro motivo que não o de se adequarem a esse ou aquele tipo humano: o Pit Bull para os bombadinhos e briguentos, o Labrador para as crianças e famílias felizes, o Rottweiler para os mansos psicopatas, o Vira-latas para os pobres ou alternativos, o Yorkshire Terrier (poderia citar mais um milhão de pelúcias animadas, ou assassinas, e a finalidade de sua existência, mas não sou catalogador de matilhas, fui, isso sim, até muito longe nessa enumeração, cuja exclusiva finalidade era comprovar um argumento besta) para as patricinhas.
Mas dizia que, apesar da calça de ginástica, a fotografia não me agradara. Meu descontentamento entendia com a reminiscencia que a figura da graciosa besta me despertou:
- Estou errado, ou quando entrei aqui tive de assinar um documento me comprometendo, entre outras coisas, a não criar animais de estimação? Invento, misturo sonho e realidade, criando lembranças, tal meu vizinho que, após sonhar ter pego a mulher na cama com o irmão, matou-a, na vida real? Se não. Se meu substrato mnemônico não é um mero retalho de tecidos oníricos e fáticos cegamente enleados, suponho que a colega do 14 também, ao debutar em sua condição de inquilina deste prestigiado Edifício Jornalista Gustavo Menezes, tenha deixado sua firma em idêntico documento.
O fato é que, tendo a respeitável inquilina do 14 se encostado comodamente em uma das cadeiras de plástico dispostas de forma rotunda, o ex-síndico que, até então, taciturno, não tinha agraciado nenhum dos presentes com sequer um sorriso daquela face cansada, de bochechas molengas, cabelos grisalhos e aleatoriamente dispostos, e sobrancelhas cerradas, passou a lançar incontidos sorrisos, como se o estacionamento fosse um jardim, os olhos dos presentes capim, e seus dentes um irrigador giratório automático – o leitor perdoará a pobreza poética e o ridículo da metáfora se o autor argumentar que o fez assim não por mediocridade, nem carência de inspiração, isso se evita copiando qualquer coisa de Machado de Assis; mas o fez porque descreve mesmo o ridículo e o poeticamente desnutrido do mundo.
E o ex-síndico brincava com a cachorrinha, e acariciava-lhe o pelo, e coçava-lhe o pescoço e a nuca e as orelhas, e conversava, como se o insignificante ser canino deveras fosse um humano de um ano e oito meses, e demonstrava muito interesse, fazendo toda qualidade de perguntas à gostosa do 14.
Eu sentia raiva dele. O achava, repito, ridículo. Não sou afeto à repetição no texto literário, no científico sim, nele é fundamental a repetição, em nome do rigor científico, coisa que não entendem nossos atuais juristas, principalmente os jurispoetas, tal qual o eminente ministro jurispoeta Carlos Ayres Britto; mas no literário fica chato, pega mal. Deixo-me ser repetitivo, contudo. Que o seja a título de anáfora... Deixo-me ser repetitivo, porque a situação me despertava, mais do que a curiosidade da observação sociológica ou psicanalítica, o asco sentimental, e a amiga leitora bem sabe que são inversamente proporcionais a excitação dos nervos e o domínio vernacular, como se em situações graves, capitais, o leque de palavras à nossa disposição se reduzisse a uma meia dúzia de termos, de maneira que, sendo rendidos por homens armados, ou sendo abandonados pela pessoa amada, nos é impossível tecer um arrazoado convencendo o malfeitor, ou a malfeitora, de que a atitude oposta ou qualquer outra alternativa menos gravosa pudesse satisfazer ambas as partes. Qual o despropósito, dizia eu que o ex-síndico, que estava ali, imagino, antes da gloriosa entrada da dama do 14, apenas para descer glosas ao atual síndico, passou a brincar com a delícia da cachorrinha do 14. Brincava e demonstrava interesse. Para que, arguta leitora? Para que, vivido leitor, homem também, como o ex-síndico? Entendo dispensável redigi-lo, é por demais óbvio, e confesso que, à parte isso, não o faria aqui, no meio do texto, tão longe da foz, ou mesmo de qualquer caidinha d'água, sem nenhum crescente na encenação, no enredo. Quando o fizer, se fizer, será como fazem os palhaços, respeitando a milenar dogmática do tempo cômico, utilizando a regra básica do “um, dois, três: riso”.
Patente, malgrado, que o ridículo ex-síndico nunca conseguiria nada com a musa do 14. Digo logo, já que não sou um escritor romântico, mas um realista-naturalista-modernista-pos-modernista-contemporâneo.
Reconheço que, agora, escrevendo o ocorrido, sinto até um remorso, me indago se não constitui exagero da minha parte me incomodar com a excitação de um pobre velho. Sim, sinto remorso, e quase desisto de chegar ao fim do texto. Mas, quando ia fechando o notebook, um espasmo me impediu, foi um espasmo, mas tinha voz também, e me disse:
Ei, concede a ti mesmo crédito! Porque não terminas a narrativa? Talvez ao cabo convença-te da procedência da tua indignação. E ainda que isso não aconteça, comprovado seres um tolo, estarás na mesma indecorosa condição moral de agora, pior certamente não estarás. Além de tudo, reflete com este espasmo, quem sabe se a desventura de perder mais tempo do que perderias se desistisses agora mesmo não te faça, por consequência, mais desgostoso de ti e, assim, largas de uma vez et ad infinitum a literatura, que não é teu ofício?!
Prossigo. O desconcertante para mim era que a flor do 14 não era grande coisa. Nem tinha o rosto bonito... era gostosa, isso sim, mas não era perfeita, nem perto. Perfeita, detive-me nessa palavra, pensei que já há algum tempo que as musas dos romances não são perfeitas. Elas sempre têm algum defeito, moral, ordinariamente, mas às vezes até físico. A imperfeição das musas entrou tanto no gosto dos autores, que o defeito muita vez é o traço mais cativante, mais apaixonante, mais voluptuoso. Leio Machado de Assis, Marcela é avara, Eugênia coxa, Virgília adúltera, Capitu dissimulada, todas intensamente amadas pelos protagonistas, leio Kafka, e Leni tem uma malha de pele que une os dedos médios da mão direita, encantadora a Leni, leio Graciliano Ramos, e Diadorim tem um problema gravíssimo de gênero, mas, ainda assim, que amor forte, difícil, insistente e doído o de Riobaldo...
Constatei-o, e frente à constatação empírica, até o mais cínico racionalista tem de ceder. No caso, cedi à seguinte conclusão, que se impunha: os modernos não têm interesse em musas perfeitas, como tinham os antigos. Arrisquei uma indução e percebi que, de fato, essa circunstancia se aplicava a toda a arte, não só à literatura, mas à música, à pintura, à escultura, ao teatro, ao cinema etc. Morte à simetria, à consonância, à proporção, a tudo o que era ligado ao perfeito. Ode ao caos.
Saí do sobrepiso sólido do empirismo, mas não desci, me lancei janela a fora, voltando a flutuar no meu bom e velho tapete mágico do racionalismo, e ponderei, tão demoradamente quanto a reunião me permitiu, sobre a razão desse gosto pelo imperfeito, já tão assentado no espírito dos meus contemporâneos, mas que no momento me causava espécie. Súbito esbarrei na conclusão terrível, tão terrível que, por efeito do abalroamento, cheguei a fitar, com olhos esbugalhados, os seios da inquilina do 14. Era a conclusão: o homem moderno não busca mais a perfeição porque a acha, pasmem, não sei se digo, chata.
Mais uma esticada indutiva, e já tinha uma teoria sobre a miséria da humanidade, entendi porque ninguém respeita as leis do condomínio, nem as leis da república, porque não se acaba com a corrupção e a injustiça, porque não se provê saneamento básico, porque não se para e planeja a cidade, a agenda, a vida mesma. Porque isso seria a perfeição, e a perfeição é chata.
Entendi porque era impossível àquele velho nojento resistir aos encantos da moça do 14, e aceitei que a razão de minha raiva em relação a ele era, na verdade, um reflexo – que contraía dolorosamente minhas pupilas até me tornar quase cego –, um eco – que agredia meus ouvidos, me tornando quase surdo.
Eu não tinha raiva do ex-síndico. Tinha raiva da miséria da humanidade (um), tinha raiva da minha própria miséria naquela reunião (dois), tinha raiva da miséria de um rapaz que, tendo abdicado da perfeição, por considerá-la chata, com qualquer poema se contenta, com qualquer escultura se apraz, com qualquer jurisprudência se alinha, com qualquer ideia se distrai (três): comê-la (riso)!

2 comentários:

  1. Rapaiz! Miséria mesmo é o seu condomínio homenagear um não-profissional que nunca exerceu a profissão. Isso sim é um sinal claro da atual misérê da humanitê. Não tenho mais palavras...estou naquele estado em que o vocabulário diminui.

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  2. Lamentável... mas não pra mim: barateou o valor do aluguel.

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