Viajo
amanhã e não poderia deixar de te escrever esta missiva consignando
minhas escusas. Que a tepidez do meu arbítrio lexical não impinja
em tua augusta alma perverso influxo: amei-te. Amei-te como as moças
amam, de modo onírico, os rapazes, como as filhas amam, em libidinal
segredo, seus pais, como a cabeça ama, inexoravelmente, os troncos e
os membros. Amei-te a você, assim, coloquialmente, e não na segunda
pessoa do singular, como na forma culta. Amei-te intensamente,
cegamente, impavidamente. Amei-te, e já não te amo. Escrevo-te
sendo certa e errada, certa na gramática e errada no teu orgulho,
errada, porque há imperativos de moral, de consideração, de
amizade, certa, porque no amor não se erra, certa, porque tenho
convicção de meus sentimentos, errada, porque os sentimentos não
são convictos de si mesmos, porque a ternura do sol vernal, será
tortura do sol estival e tornar-se-á novamente delícia do sol
hibernal, certa, errada, certa, errada... Não ignoro que ainda me
amas, ignoro, sim, a regra dos amores, ignoro porque se ama quem não ama em
retorno. Muita vez me assombro conjeturando ser o amor, por ligar
duas almas, linha, e, sendo linha, apenas ficção da geometria.
Ignoro o motivo de me amares e eu não te amar. Ignoro-o. Não por
indiferença, gostaria de amar-te também, gostaria de poder tornar
nosso relacionamento, nossos sentimentos justos, simétricos,
equânimes. Mas não te amo. Em vão procurei, nesses dias que
sucederam nossa separação, e até antes, a razão de eu não te
amar. Ela não existia. Dessarte, inverti a interrogativa: Por que
razão tu me amas? Porque eu sou bonita?! Então queres pra ti o
belo, julgas-te digno do belo, tens vaidade de possuir o belo!?
Porque sou inteligente, culta, porque tenho qualidades, porque me
admiras?! Nesse caso, queres para ti minhas qualidades!? Queres
sentir-te inteligente por ter curvada a ti uma mulher inteligente!?
Queres sentir-te culto por não enfadar uma mulher culta!? Queres
sentir ser um homem de qualidades e virtudes por ser amado por uma
mulher de qualidades e virtudes!? Me amas, de certo, porque eu faria
tudo por ti, cuidaria de ti?! Então pensas, novamente, no teu
próprio bem, na tua própria comodidade!? Por que me amas?! Porque
eu não te amo?! Queres então ser capaz de conquistar o impossível!?
De reverter meus sentimentos!? De dominar, desbravar, conquistar,
tomar meu amor, como Alexandre e Gengis Khan tomaram o mundo!?
Queres, pois, adentrar, dominar e proclamar-te imperador do reino de
mim!? Ora, se esse é o caso (e tenho para mim que sim, pensa bem),
todos os reinos são reinos igualmente dignos de serem conquistados,
tu não haverás de discordar que, se tivesse nascido inca, Alexandre
teria dominado as Américas com o mesmo prazer, orgulho e vivacidade
que experimentou dominando a Eurásia. Escrevo-te essa missiva
suplicando teu perdão, suplicando que me esqueças, que sigas em
frente, que não chores, meu colega, que não me odeies, pois
amas-me a ti mesmo.
sexta-feira, 10 de agosto de 2012
quinta-feira, 2 de agosto de 2012
Minha mãe não me deixa sair
Mendigos da praça da
igreja,
garis, presidiários,
turistas, guardas,
garotas do colégio
Mace (eu vejo vocês,
ao meio-dia, na Rui
Barbosa, na Quinze de Novembro, namorando e esperando, nos mesmos
lugares que as prostitutas e os travestis, à meia-noite),
prostitutas, travestis,
crentes malucos que
anunciam o fim dos tempos aos berros no centro,
mulheres, homens
de toda sorte:
minha mãe não me
deixa sair!
Espíritos da Avenida
Afonso Pena,
a avenida da minha
vida,
a avenida de carros e
construções...
Batuque de máquinas!
Cafofo do universo!
Cafofo de fraqueza,
hipocrisia, fantasia e grandeza!
Imenso lugar minúsculo!
Minha casa é menor
ainda;
meu corpo...
Casas, lojas,
repartições públicas,
shoppings, bares,
lanchonetes,
negro asfalto
sarapintado em sangue,
postes, cabos
condutores de eletricidade,
prédios gigantes,
ásperos, escarpas de concreto...
(Tudo isso é morto.
Tudo isso é morto e
ainda assim o amor está ali,
tão forte, tão óbvio,
tão nítido,
que causa vertigem,
que resiste ao Sol
escaldante da tarde,
que nunca evapora.)
Pombas, pardais:
minha mãe não me
deixa sair!!
Motoqueiros
acidentados,
no chão de quarenta
graus,
sangrando, mutilados,
bandidos, ladrões,
noiados, estupradores,
deficientes físicos,
cadeirantes,
cegos, deficientes
mentais,
deficientes de caráter,
de personalidade,
atletas, madames,
fazendeiros merecidamente podres de ricos,
filhos de fazendeiros,
playboys musculosos, agressivos,
homossexuais
enrustidos, padres, eu pequei,
anões do residencial
Flamboyant:
minha mãe não me
deixa sair!!!
Oh, desespero da
humanidade,
do humano, demasiado
humano,
de páginas e páginas,
de livros e livros que
eu não li, + q quero ler pq o título eh massa.
Hey, John Lennon, Cartola,
Beethoven:
minha mãe não me
deixa sair!!
Que vento é esse,
que arrouba, arranca,
arrebata,
arrasa, arromba,
arralenta,
arranha, arreganha,
arrepia, desarranja,
que mata e não se
arrepende,
que arrama, que arrasta
as sementes e arremessa a vida,
arretado, que arria o
rapaz e arriba a saia da moça,
que abre e fecha portas
e janelas, abrupto,
que tudo leva, que tudo
traz,
que assovia chamando:
Pedro,
que acaricia,
que, vazio, é cheio de
significado?
Volúpia dos violões...
Versos vibram,
vociferam vadios.
Vermes!!!
Se alimentam do meu
sofrimento
- me alimento do meu
sofrimento -
se aproveitam de minha
nobreza,
minha preguiça, minha
vaidade. Minha mãe
não me deixa sair.
quinta-feira, 26 de julho de 2012
A arte pela arte ou a arte para um fim? that's the question...em aberto.
Eis que Pedrocemvezes faz uma pergunta: as musas de hoje não são mais perfeitas como antigamente eram? Eis que seu interlocutor lhe pergunta: O que é perfeição pra você? Eis que Pedro responde: o Belo. Eis que o outro rebate: Mas o belo não é igual pra todos e, além disso, o Belo nada mais é do que algo criado, racionalmente, para ser belo para determinado público, com o intuito de atingir certo objetivo - causar uma emoção ou um comportamento - pretendido pelo artista. Eis que Pedro não se conforma e insiste que o Belo é o belo e nada mais, e a arte não pode ser somente pragmática, feita com um fim determinado de causar um impacto ou uma emoção controlada pelo artista nas pessoas atingidas por sua obra. Eis que surge, na minha cabeça, o seguinte questionamento: "A arte pela arte ou a arte para um fim?"
Para responder essa pergunta, com certeza, seria necessário um estudo aprofundado sobre a história da arte, desde os tempos remotos dos nossos descendentes primatas das cavernas até os dias de hoje, mas como este é apenas um blog, e não uma revista científica, e os autores são apenas diletantes, e não estudiosos da cepa de um Umberto Eco (felizmente!), então vamos ao improviso...
Mas, antes, transcrevo o trecho de um texto do Paulo Francis que, por coincidência, li ontem e ajudará nesta reflexão improvisada - proponho que este post fique em aberto para intervenções minhas (fonte na cor de sempre) e de Pedrocemvezes (fonte em outra cor de sua preferência ou com aquele grifado branco que você tá usando). Por enquanto, delicie-se com o texto do Paulo Francis:
Os artistas são, entre outras coisas, os historiadores supremos do indivíduo. O desenvolvimento acelerado das ciências sociais no século XIX, a partir de Marx (e contra ele, na maioria dos casos), nos permite, hoje, ver qualquer era da humanidade em termos de forças econômicas, políticas e culturais, mas se queremos enxergar a pessoa humana, fora do quadro de estatísticas e dos movimentos decisivos da História, Sófocles nos diz mais que qualquer outro tratado sobre helenismo em moda. E ficando em Sófocles, basta olhar o manjadérrimo Édipo. Sabemos, como espectadores, que o destino do protagonista foi predeterminado, mas Édipo pensa e age na "ilusão" de que é capaz de fazer o que quiser, ou que for capaz. Em última análise, é uma ilusão mesmo. Nos tempos de Sófocles, os deuses determinavam nosso destino. Hoje, foram substituídos pela Bolsa de Nova York. Há quem chame isso de progresso.
Mas é uma ilusão poderosa. Acredito que até o Jaguar se julgue senhor de si próprio. Mais não preciso dizer. E o artista é a expressão máxima dessa consciência que temos de nós mesmos. Há 700 milhões de teorias estéticas negando o que acabei de dizer. E os últimos pensadores importantes a concordarem comigo, Nietzsche e Freud, são considerados, hoje, pouco "científicos". (...)
Ezra Pound (1885-1972) é o Artista por excelência do século XX. No E.P. Ode por L'Eléction de son Sepulchre, o poeta escreveu a linha autobiográfica citadíssima: His true Penélope was Flaubert. Não dá pra traduzir, porque, em inglês, "true" quer dizer, ao mesmo tempo, "fiel" e "verdadeira", em relação à fiel e verdadeira (única) mulher de Ulisses, Penélope, que, no caso de Pound, ele dizia ser Flaubert, o mestre consumado do estilo, do valor intrínseco da palavra, da literatura pela literatura, da arte pela arte, em suma. O esquerdista ingênuo estremece. Aí está um cavalheiro propondo uma torre de marfim, uma citadela do individualismo, alienado, etc. em face das injustiças e crueldades do nosso tempo. Logo, Pound é "objetivamente" um apologista do status quo, do imobilismo social. Mas se você lê os poemas mais famosos de Pound, Homage to Sextus Propertius e (...) encontrará ataques devastadores à burguesia dominante. O mesmo pode ser dito de outros gigantes da literatura anglo-americana-irlandesa do século XX, Joyce, Eliot, Yeats e D.H Lawrence, todos politicamente (em graus variáveis) reacionários, pelos critérios convencionais.
O desprezo e o ódio que esses artistas têm pela sociedade burguesa é idêntico ao do mais virulento bolchevique de 1917. A diferença, claro, é que eles não aceitam a solução marxista.
(...)
E não só em literatura. Se você ouve Strauss (Richard) e Stravinsky pré-1914, nota que a "selvageria" dos dois contrastava "inexplicavelmente" com o otimismo do liberalismo capitalista na Europa, que não enfrentava uma guerra séria desde 1871 (ou na versão Metternich-Reader's Digest do Dr. Kissinger, desde 1815). Idem, em outro exemplo, o cubismo do "comunista" Pablo Picasso. Haverá coisa mais anti-humanista do que o cubismo, pergunto? É que esses artistas, por sua posição política pública, assumiam inconscientemente a insatisfação do indivíduo com a sociedade de massas. (...)
[Pasquim, n° 177, novembro de 1972, Paulo Francis]
Retomemos o debate. Pra responder a tão esperada questão: "A ARTE PELA ARTE OU A ARTE PARA UM FIM?", vamos ao conceito chave, o principal, porque sem ele não sabemos nem do que estamos falando (como se soubéssemos mesmo), do quê seria arte? Afinal, o que é ARTE?
Você poderia responder, de forma apressada e desinteressada, que é qualquer coisa feita por um artista, mas aí você estaria jogando toda a responsabilidade sobre o artista (como se não fosse mesmo). E, então, perguntaríamos, de pronto e mais porcamente, quem é esse tal de artista, no que responderíamos, mais rápido e cinicamente que antes, que é o cara, à toa, que se mete a fazer arte, ué! Pois, como se nota, não sairemos desse circo nunca, uma vez que sempre haverão pessoas que fazem algo que dizem ser arte e, por isso, são considerados artistas; e, por outro lado, sempre haverão coisas inexplicáveis que serão chamadas de arte e, por isso, seus autores também serão considerados artistas.
Dito tudo isso, somente pra saber o que é arte e então iniciarmos o debate reflexivo que levaria fatalmente a tão almejada resposta à pergunta inicial, entro em estado profundo de consternação por não ver um fim nisso tudo, apenas arte, e durmo.
Ciente
de que tudo o que eu disser pode e será utilizado contra mim,
inclusive o que eu não disser, contribuo com essa discussão que não
existe (já que nenhuma tese foi colocada).
Permiti-me
não ler o texto do rapazinho aí, já que somos diletantes
(preferiria boêmio) cujas reflexões sobre a arte são
necessariamente improvisadas. É que, nessa condição, não
precisaríamos de ler porra nenhuma pra falar sobre o que for (a
transcrição do texto do erudito é incoerente com a introito do
tópico). Nada obstante, confesso que tentei lê-lo, o erudito falou
em marx, bolsa de ny, sófocles, fiquei curiosíssimo
pra saber da feijoada quando pronta, mas tive que parar no parágrafo
em que o erudito afirmou que o Nietzsche e o Freud concordavam com
ele. Pô, se até os gênios defuntos concordam com ele, quem sou eu
pra...
Eu
sou só esse cara que tá aí, todo dia, que vocês conhecem, nada
demais, daqui nada de incrível ou genial vai sair.
Sobre
a arte pela arte ou para um fim, penso que é necessário esclarecer
se estamos falando sobre o que a arte é, ou sobre o que ela
deve ser.
No
primeiro sentido, acho que a arte é algo para um fim, porque
tudo o que o homem faz ele faz para um fim. Apesar de sua existência
mesma não ter um fim.
No
segundo sentido, acho uma discussão infrutífera, não adiantaria
dizer que a arte deve ter um fim, se ela, por sua natureza,
não tivesse, e vice versa.
Agora,
a discussão sobre o que é arte... essa sim vale a pena pegar na
pena para pintar o papiro.
Mas
também sinto sono, tanto que tentava fazer uma obra de arte, nada de
genial, somente algo decente, algo que alguém olhasse e dissesse, é,
ok, tem métrica e faz sentido; mas saiu isso:
Te
contarei uma novidade, o mundo é uma bola girando há muito tempo no
espaço, você preso no mundo, por uma questão de gravidade, por uma
questão de vaidade quer ter tudo quer ser livre no mundo uma bola
girando, há muito tempo no espaço você preso no mundo por uma
questão de gravidade nunca livre nunca dono de nada e nada que há
para ser possuído apenas a bola do mundo há muito tempo girando no
espaço, por uma questão de vaidade você querendo tudo e não tendo
nada senão sua dor, seu amor, e seu sono, o mundo é uma bola
girando e você perdendo e ganhando vai no espaço preso achatado na
crosta livre para o voo impossível da sua vaidade liberdade e vai
idade se alargando no tempo é tudo querer tudo por ter nada a não
ser o mundo uma bola gigante girando há muito tempo no espaço você
preso no mundo por uma questão de vaidade acumulando e acumulando
muita dor, muito amor, e muito sono, o mundo é uma bola girando há
muito tempo no espaço seu dia vai acabando seu filho seu neto seu
sono uma questão de continuidade oh sua vaidade... você preso ao
norte por uma questão de sua vida de sua morte, seu amor, e seu
sono, seu mundo é uma bola girando há muito tempo no espaço.
Me
arrependi de tudo, sem exceção, não publicarei.
quarta-feira, 25 de julho de 2012
Condomínio.
Estávamos reunidos os inquilinos para a prestação de contas do
condomínio Edifício Jornalista Gustavo Menezes. Eu, estreante, não
sabia que um par de colegas era ainda ausente, entre eles, a
inquilina do 14. Mas fiquei sabendo, quando ela chegou ao
estacionamento onde, de modo improvisado, sentados em cadeiras de
plástico, nos reuníamos para a palestra de inutilidades que viria a
seguir. A inquilina do 14, então, juntou-se a nós, displicentemente
trajada com sua roupa de ginástica, um traje que levaria à loucura
qualquer Kassin, mas que não me transmitiu imediato apelo erótico,
porque a jovem mulher trazia, sob guarda maternal, uma cachorrinha da
raça Yorkshire Terrier. Nada contra a inocente criaturinha. Pelo
contrário, acho é grandioso que esse animal, o cachorro, seja tão
ligado ao homem, que suas diferentes raças, em realidade, não
existam por outro motivo que não o de se adequarem a esse ou aquele
tipo humano: o Pit Bull para os bombadinhos e briguentos, o Labrador
para as crianças e famílias felizes, o Rottweiler para os mansos
psicopatas, o Vira-latas para os pobres ou alternativos, o Yorkshire
Terrier (poderia citar mais um milhão de pelúcias animadas, ou
assassinas, e a finalidade de sua existência, mas não sou
catalogador de matilhas, fui, isso sim, até muito longe nessa
enumeração, cuja exclusiva finalidade era comprovar um argumento
besta) para as patricinhas.
Mas dizia que, apesar da calça de ginástica, a fotografia não me
agradara. Meu descontentamento entendia com a reminiscencia que a
figura da graciosa besta me despertou:
- Estou errado, ou quando entrei aqui tive de assinar um documento me
comprometendo, entre outras coisas, a não criar animais de
estimação? Invento, misturo sonho e realidade, criando lembranças,
tal meu vizinho que, após sonhar ter pego a mulher na cama com o
irmão, matou-a, na vida real? Se não. Se meu substrato mnemônico
não é um mero retalho de tecidos oníricos e fáticos cegamente
enleados, suponho que a colega do 14 também, ao debutar em sua
condição de inquilina deste prestigiado Edifício Jornalista
Gustavo Menezes, tenha deixado sua firma em idêntico documento.
O fato é que, tendo a respeitável inquilina do 14 se encostado
comodamente em uma das cadeiras de plástico dispostas de forma
rotunda, o ex-síndico que, até então, taciturno, não tinha
agraciado nenhum dos presentes com sequer um sorriso daquela face
cansada, de bochechas molengas, cabelos grisalhos e aleatoriamente
dispostos, e sobrancelhas cerradas, passou a lançar incontidos
sorrisos, como se o estacionamento fosse um jardim, os olhos dos
presentes capim, e seus dentes um irrigador giratório automático –
o leitor perdoará a pobreza poética e o ridículo da metáfora se o
autor argumentar que o fez assim não por mediocridade, nem carência
de inspiração, isso se evita copiando qualquer coisa de Machado de
Assis; mas o fez porque descreve mesmo o ridículo e o poeticamente
desnutrido do mundo.
E o ex-síndico brincava com a cachorrinha, e acariciava-lhe o pelo,
e coçava-lhe o pescoço e a nuca e as orelhas, e conversava, como se
o insignificante ser canino deveras fosse um humano de um ano e oito
meses, e demonstrava muito interesse, fazendo toda qualidade de
perguntas à gostosa do 14.
Eu sentia raiva dele. O achava, repito, ridículo. Não sou afeto à
repetição no texto literário, no científico sim, nele é
fundamental a repetição, em nome do rigor científico, coisa que
não entendem nossos atuais juristas, principalmente os jurispoetas,
tal qual o eminente ministro jurispoeta Carlos Ayres Britto; mas no
literário fica chato, pega mal. Deixo-me ser repetitivo, contudo.
Que o seja a título de anáfora... Deixo-me ser repetitivo, porque a
situação me despertava, mais do que a curiosidade da observação
sociológica ou psicanalítica, o asco sentimental, e a amiga leitora
bem sabe que são inversamente proporcionais a excitação dos nervos
e o domínio vernacular, como se em situações graves, capitais, o
leque de palavras à nossa disposição se reduzisse a uma meia dúzia
de termos, de maneira que, sendo rendidos por homens armados, ou
sendo abandonados pela pessoa amada, nos é impossível tecer um
arrazoado convencendo o malfeitor, ou a malfeitora, de que a atitude
oposta ou qualquer outra alternativa menos gravosa pudesse satisfazer
ambas as partes. Qual o despropósito, dizia eu que o ex-síndico,
que estava ali, imagino, antes da gloriosa entrada da dama do 14,
apenas para descer glosas ao atual síndico, passou a brincar com a
delícia da cachorrinha do 14. Brincava e demonstrava interesse. Para
que, arguta leitora? Para que, vivido leitor, homem também, como o
ex-síndico? Entendo dispensável redigi-lo, é por demais óbvio, e
confesso que, à parte isso, não o faria aqui, no meio do texto, tão
longe da foz, ou mesmo de qualquer caidinha d'água, sem nenhum
crescente na encenação, no enredo. Quando o fizer, se fizer, será
como fazem os palhaços, respeitando a milenar dogmática do tempo
cômico, utilizando a regra básica do “um, dois, três: riso”.
Patente, malgrado, que o ridículo ex-síndico nunca conseguiria nada
com a musa do 14. Digo logo, já que não sou um escritor romântico,
mas um realista-naturalista-modernista-pos-modernista-contemporâneo.
Reconheço que, agora, escrevendo o ocorrido, sinto até um remorso,
me indago se não constitui exagero da minha parte me incomodar com a
excitação de um pobre velho. Sim, sinto remorso, e quase desisto de
chegar ao fim do texto. Mas, quando ia fechando o notebook, um
espasmo me impediu, foi um espasmo, mas tinha voz também, e me
disse:
Ei, concede a ti mesmo crédito! Porque não terminas a narrativa?
Talvez ao cabo convença-te da procedência da tua indignação. E
ainda que isso não aconteça, comprovado seres um tolo, estarás na
mesma indecorosa condição moral de agora, pior certamente não
estarás. Além de tudo, reflete com este espasmo, quem sabe se a
desventura de perder mais tempo do que perderias se desistisses agora
mesmo não te faça, por consequência, mais desgostoso de ti e,
assim, largas de uma vez et ad infinitum a literatura,
que não é teu ofício?!
Prossigo. O desconcertante para mim era que a flor do 14 não era
grande coisa. Nem tinha o rosto bonito... era gostosa, isso sim, mas
não era perfeita, nem perto. Perfeita, detive-me nessa palavra,
pensei que já há algum tempo que as musas dos romances não são
perfeitas. Elas sempre têm algum defeito, moral, ordinariamente, mas
às vezes até físico. A imperfeição das musas entrou tanto no
gosto dos autores, que o defeito muita vez é o traço mais
cativante, mais apaixonante, mais voluptuoso. Leio Machado de Assis,
Marcela é avara, Eugênia coxa, Virgília adúltera, Capitu
dissimulada, todas intensamente amadas pelos protagonistas, leio
Kafka, e Leni tem uma malha de pele que une os dedos médios da mão
direita, encantadora a Leni, leio Graciliano Ramos, e Diadorim tem um
problema gravíssimo de gênero, mas, ainda assim, que amor forte,
difícil, insistente e doído o de Riobaldo...
Constatei-o, e frente à constatação empírica, até o mais cínico
racionalista tem de ceder. No caso, cedi à seguinte conclusão, que
se impunha: os modernos não têm interesse em musas perfeitas, como
tinham os antigos. Arrisquei uma indução e percebi que, de fato,
essa circunstancia se aplicava a toda a arte, não só à literatura,
mas à música, à pintura, à escultura, ao teatro, ao cinema etc.
Morte à simetria, à consonância, à proporção, a tudo o que era
ligado ao perfeito. Ode ao caos.
Saí do sobrepiso sólido do empirismo, mas não desci, me lancei
janela a fora, voltando a flutuar no meu bom e velho tapete mágico
do racionalismo, e ponderei, tão demoradamente quanto a reunião me
permitiu, sobre a razão desse gosto pelo imperfeito, já tão
assentado no espírito dos meus contemporâneos, mas que no momento
me causava espécie. Súbito esbarrei na conclusão terrível, tão
terrível que, por efeito do abalroamento, cheguei a fitar, com olhos
esbugalhados, os seios da inquilina do 14. Era a conclusão: o homem
moderno não busca mais a perfeição porque a acha, pasmem, não sei
se digo, chata.
Mais uma esticada indutiva, e já tinha uma teoria sobre a miséria
da humanidade, entendi porque ninguém respeita as leis do
condomínio, nem as leis da república, porque não se acaba com a
corrupção e a injustiça, porque não se provê saneamento básico,
porque não se para e planeja a cidade, a agenda, a vida mesma.
Porque isso seria a perfeição, e a perfeição é chata.
Entendi porque era impossível àquele velho nojento resistir aos
encantos da moça do 14, e aceitei que a razão de minha raiva em
relação a ele era, na verdade, um reflexo – que contraía
dolorosamente minhas pupilas até me tornar quase cego –, um eco –
que agredia meus ouvidos, me tornando quase surdo.
Eu não tinha raiva do ex-síndico. Tinha raiva da miséria da
humanidade (um), tinha raiva da minha própria miséria naquela
reunião (dois), tinha raiva da miséria de um rapaz que, tendo
abdicado da perfeição, por considerá-la chata, com
qualquer poema se contenta, com qualquer escultura se apraz, com
qualquer jurisprudência se alinha, com qualquer ideia se distrai (três):
comê-la (riso)!
terça-feira, 24 de julho de 2012
Você e eu
Letra
"Volta"
Volta
Agora aqui só mais um pouco
E me beija feito um louco
E não pára, não pára
Volta
E me faz mulher de novo
Eu sei é só você que me conhece
E queima feito fogo
Volta
E me deixa de cara
O seu jeito é uma navalha
Que corta
Que me fere
Que eu gosto
Que tem gosto
De tudo
De nada
Volta
E me olha como a deusa
Impossível
Imperfeita
Que te ama
Que te odeia
Letra e tradução
"Play the part"
Spending time
Convinced that it's mine with her
Just to keep her out of mind
Passando o tempo,
Convencido de que é meu [o tempo] com ela
Só pra mantê-la fora dos meus pensamentos
Still I'll take care to see
Which way the wind blows
Notice how her hair curls
Ainda eu tomarei cuidado pra ver
em que direção o vento sopra
observar como seu cabelo ondula
Pay no mind
To the clown who sits to your side
Content to yield despite pride
Não preste atenção
ao palhaço que senta ao seu lado
satisfeito em ceder/se render/se entregar apesar do orgulho
He is a fool to assume you'd spare a thought
I'm a thieve who's just been caught
And I don't find it funny anymore
Ele é um tolo de acreditar que você se lembraria que
eu sou um ladrão que acabou de ser pego
E eu não acho mais graça nisso
And so I won't play the part
I played before
Oh, no...
Not to you
E então eu não vou fazer o papel
que eu representei antes
Ah, não...
Não pra você
I don't see you laughing anyway
And so I won't play a part
In your mistake
No way
Eu não vejo você sorrindo mais
E então não vou contribuir
nesse seu erro
Sem chance
Not unless you stay
A não ser que você fique
ou
Nem a não ser que você fique*.
*A dúvida: nessa última frase há uma dupla negação, o que não é aceito no inglês, não é? Lembra-se que, quando usa o negativo (don't/didn't), não se usa nobody, nowhere, etc, mas anybody, anywhere?
Pergunto: como fica o final da letra? Será que foi proposital? Vai saber, né?
segunda-feira, 23 de julho de 2012
O homem que trocou a mulher pela cidade.
Carlos é funcionário público há dez anos, nesse meio tempo, não
se sabe exatamente onde, mas com certeza não antes de completados
cincos anos de serviço público, Carlos passou a sair todas as
noites de carro pela cidade. Em suas saídas, Carlos não tinha
objetivos, senão olhar. E grafo olhar, em vez de observar,
não por acaso, mas porque comunica melhor aquilo que Carlos fazia.
Sabe-se que as palavras são meros grunhidos ordenados, cuja única
razão de ser é a comunicação entre os homens. É bem verdade que,
tendo inventado as palavras para ameaçar, ou para pedir emprestado –
sendo a última hipótese mais aceita pelos estudiosos, por provável
que as primeiras palavras tenham sido o equivalente, no idioma das
cavernas, de “por favor”, no nosso idioma; patente que aquela, a
ameaça, não exige complexa sinalização corporal, e não levaria o
homem a quebrar sua cabeça organizando esse código tão incrível,
quase perfeito, quase divino, místico, sagrado, que é o idioma –
, o homem, que, como se sabe, não é nada bobo, passou a usá-las
também para organizar seu pensamento. A partir daí – sendo o
cérebro um órgão idiota na sua inteligência, explico, cujo
brilhantismo, não raro, impede seu dono de viver em paz –,
incontáveis palavras foram sendo criadas para definir cada um dos
objetos, cada um dos fenômenos, cada um dos sentimentos. Palavras e
palavras, um mar delas. Ainda que dois objetos ou sentimentos sejam
os mesmos, uma simples peculiaridade justifica, para o homem, um novo
nome; por exemplo, uma cadeira e uma poltrona são ambas objetos para
se sentar, mas a diferença de forma e material justifica nomes
diferentes. Outro exemplo, o amor e o ódio, são ambos sentimentos
fortíssimos de uma pessoa em relação a outra, ou a si mesma,
fortíssimos no sentido de mais fortes que qualquer outro sentimento
que se possa imaginar – entendo necessária a explicitação porque
não sinto no superlativo absoluto sintético português a mesma
força que no inglês; tivesse o português um “fortest”,
usa-lo-ia com mais segurança na robustez do significado –, a única
diferença é que um, o amor, é para o bem e o outro, o ódio, para
o mal – esqueçamos, por razões cientifico-metodológicas e por
zelo à concisão textual, que por vezes fazemos mal, desrespeitamos
e esquecemos quem amamos, mas agimos com cortesia, respeito e nunca
nos esquecemos daqueles que odiamos. Dizia eu que Carlos olhava a
cidade, não observava, porque apesar de serem a mesma coisa, o
observar implica em um mínimo de reflexão sobre o que se está
olhando, o que Carlos não necessariamente fazia. Carlos não tinham
comprometimento com a reflexão sobre a cidade. Não fitava as
pessoas, os muros, as ruas, ou até mesmo os meio-fios achando-os
belos ou inbelos – não suportei, e usei o neologismo, tão
proibidos pelas gramáticas normativas... me fossem permitidos, nunca
lançaria mão deles – se limitava a olha-los, somente. O senhor
poderia pensar, jovem leitor do século XXI, no âmago de sua
consciência afeita à profusão de acontecimentos do mundo moderno,
essa profusão forjada pelas novelas e telejornais, que esse hábito
de Carlos tivesse algo de enfadonho, que, ao cabo de alguns poucos
meses, ele já se encontrasse farto das mesmas imagens... Se engana.
A obviedade exegética dos fatos o desmentem. Demos o mínimo de
crédito ao nosso amigo, quiça herói. Não é possível que ele
passasse anos fazendo algo que não tivesse nada de interessante e
novo. Não é possível que, sendo enfadonho esse hábito, por ele
Carlos acabasse tomando certas decisões de sanidade, no mínimo,
duvidosa – têm ideia do que estou falando, não fingo aqui que as
senhoras já não leram o título desta rapsódia1.
Continua...
Ou não.
1Procurem
essa palavra no dicionário, na internet, pesquisem, verão como é
interessante sua história, acharão profusão de significados, mas
nenhum que corresponda ao em que eu a utilizo aqui neste texto:
história de raposa para raposas. Mais um neologismo e a comunicação
se tornará impossível, imagino.
quinta-feira, 19 de julho de 2012
M(ó)oral
Estamos anunciando, a
quem interessar possa, que o último preceito moral caiu.
Não há mais nada que
seja errado.
Não há mais nada que
seja errado, porque não haverá punição divina.
Divina é a vida, deus
não existe.
Nada é errado, porque
a vida continua.
A humanidade não
acabará porque alguém traiu sua mulher, seu marido.
Alguns morrerão.
Haverá roubos e
assassínios e injustiças.
Mas a vida continuará,
e nada fará diferença.
Caiu o último preceito
moral, rapaziada, mulherada, meninada, senhoras e senhores:
Vamos às orgias!
O mundo não será
melhor ou pior porque transamos ou deixamos de transar.
O mundo não será
melhor, porque sempre vivemos, e sempre hemos de viver, à força,
subjugados, maltratados, torturados.
O mundo continuará o
mesmo,
Porque já estamos
fodidos.
Caiu o último preceito
moral:
Vamos à caça!
Vamos ao horror!
Talvez lá encontremos
beleza,
talvez lá encontremos
a verdade.
Caiu o último preceito
moral:
agora só valem o
desejo e o medo (não foi sempre assim?),
agora só importa
dominar ou ser dominado (não foi sempre assim?),
agora só se respeitará
o mais forte (não foi sempre assim?).
Fazer o bem só a nós
mesmos,
ao outro, apenas no
interesse próprio:
visando obter algo em
troca ou sentir-se imponente (não foi sempre assim?).
Caiu o último preceito
moral:
Vamos às orgias!
Vamos ao horror!
Vamos aos abismos!
Talvez lá encontremos
a razão,
talvez lá não
encontremos a razão,
talvez lá abdiquemos
da necessidade de uma razão,
e, com sorte,
encontremos aquilo que sempre buscamos:
um fim.
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